Como trocar de psicólogo sem culpa: a terapia é sobre você
Como trocar de psicólogo sem culpa: a terapia é sobre você
Você está há anos com o mesmo psicólogo. Ele já te conhece bem — sabe da sua história, dos seus padrões, das suas feridas. E talvez seja justamente por isso que algo começou a travar.
Não é que ele seja um mau profissional. Não é que você não goste dele. Mas, de um tempo para cá, você sente que as sessões deixaram de te mover. Que as coisas pararam de fazer sentido. Que você sai da sessão do mesmo jeito que entrou.
E, ainda assim, a ideia de trocar de psicólogo parece errada. Quase uma traição.
Se você se reconhece nisso, este texto é para você.
O conforto que pode virar armadilha
Existe algo reconfortante em ser conhecido. Em não precisar explicar tudo de novo, em não começar do zero. E esse conforto não é ilusão — ele é real e tem valor.
Mas, na prática clínica, é possível que esse mesmo conforto comece a funcionar contra o processo terapêutico. Quando o seu psicólogo já sabe tanto sobre você, pode acontecer algo sutil: você para de falar sobre certas coisas — não porque já foram elaboradas, mas porque "ele já sabe".
E aí mora o problema. Na psicoterapia — especialmente na de orientação psicanalítica — falar não é apenas informar. Falar é elaborar. Cada vez que você retoma um tema, mesmo um que já foi dito, ele aparece de um jeito diferente, porque você é diferente a cada vez que fala. Quando o conforto da familiaridade leva ao silêncio, algo importante do processo se perde.
"Ele vai pensar o quê de mim?"
Outro obstáculo silencioso é o medo do julgamento. Por mais que você saiba, racionalmente, que o espaço terapêutico é livre de julgamento, a familiaridade pode criar uma dinâmica em que você evita certos assuntos — não porque eles não existam, mas porque tem vergonha de trazê-los para alguém que já te conhece tão de perto.
Pode parecer paradoxal, mas às vezes é mais fácil falar certas coisas para alguém que ainda não nos conhece do que para alguém que já construiu uma imagem de quem você é.
Esse receio é humano. Mas quando ele começa a ditar o que entra e o que fica de fora das sessões, o processo terapêutico começa a girar em torno de proteger a relação com o profissional, em vez de usá-la como ferramenta de trabalho.
Não são os nossos olhos azuis
Para entender por que esse tipo de dinâmica se instala — e por que ela não precisa ser o fim do seu processo —, vale olhar para algo que a psicanálise nos ensina sobre a relação terapêutica. E essa lição vale para qualquer pessoa em terapia, independentemente da abordagem.
Freud (1915) percebeu muito cedo que os sentimentos que os pacientes dirigiam a ele — admiração, apego, irritação, idealização — não eram realmente sobre ele. Eram repetições de vínculos anteriores, afetos que precisavam ser reconhecidos e elaborados. Como observa Ana Suy (2022), o grande acerto de Freud foi retirar o próprio narcisismo de jogo: ele entendeu que não era sobre seus méritos pessoais, mas sobre o que o paciente trazia ali, inconscientemente, para trabalhar.
É daí que vem a expressão que usamos na clínica: "não são os nossos olhos azuis." O vínculo que se cria na terapia é real e significativo, mas ele existe a serviço do seu processo — não do profissional. O terapeuta não está ali para ser admirado, agradado ou protegido. Está ali para que você possa se escutar.
Trocar de psicólogo não é falta de respeito com o profissional. É um ato de responsabilidade consigo. Se você sente que o processo estagnou, que as sessões perderam potência, que há coisas que você não consegue mais dizer naquele espaço — esses sinais merecem ser levados a sério.
Quando vale a pena considerar a troca
Não existe uma regra fixa, mas alguns sinais merecem atenção:
1. Você sai das sessões com a sensação de que nada novo aconteceu, e isso se repete há meses.
2. Existem assuntos importantes que você evita trazer — por vergonha, por medo da reação do profissional ou simplesmente porque "ele já sabe".
3. Você sente que continua na terapia mais por hábito ou lealdade do que por sentir que o processo está te movendo.
4. A relação com o psicólogo se tornou tão confortável que perdeu a capacidade de te provocar, no sentido clínico — de colocar questões, gerar desconforto produtivo, fazer você pensar.
Antes de decidir, vale considerar levar essa percepção para dentro da própria sessão. Muitas vezes, o incômodo com o processo é, ele mesmo, material para ser trabalhado — e dizê-lo ao seu psicólogo pode reabrir algo que parecia fechado. A troca faz sentido quando, mesmo após essa tentativa, a sensação de estagnação persiste.
Trocar de psicólogo não é começar do zero
Um medo comum é o de "perder tudo" que foi construído. But o trabalho terapêutico que você já fez está em você — nas mudanças que aconteceram, nos modos de se perceber que se transformaram, nas palavras que você encontrou para dar nome ao que sentia.
Nada disso se perde com a troca de profissional. O que muda é o espaço — e, às vezes, é justamente um novo espaço que permite que questões antigas sejam retomadas de um ângulo diferente, com uma escuta diferente.
O foco da terapia sempre foi e sempre será você. O seu processo. As suas questões. As suas demandas. E cuidar de tudo isso, com seriedade e sem culpa, é, em si, um gesto profundamente terapêutico.
Referências
FREUD, S. Observações sobre o amor de transferência (1915). In: ______. Observações sobre o amor de transferência e outros textos sobre a técnica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas, v. 10).
SUY, A. A gente mira no amor e acerta na solidão. São Paulo: Paidós, 2022.
Marcela Souza Dantas Psicóloga Clínica — CRP 02/34767