Gestalt-terapia: como funciona na prática
Gestalt-terapia: como funciona na prática?
Quando alguém começa a buscar psicoterapia, é comum encontrar diferentes nomes de abordagens e se perguntar o que, de fato, muda entre elas. Entre essas possibilidades está a gestalt terapia, uma abordagem que valoriza a experiência da pessoa como um todo e dá atenção especial ao que acontece no momento presente.
Isso não significa ignorar o passado. Sua história continua sendo importante, mas ela é observada também a partir da maneira como aparece hoje: nas emoções, nos pensamentos, no corpo, nas relações e nas formas que você encontrou para lidar com diferentes situações ao longo da vida.
Na prática, a gestalt terapia propõe um processo de ampliação da consciência sobre si e sobre a maneira como você se relaciona com o mundo. Em vez de oferecer respostas prontas sobre quem você é ou dizer qual decisão deve tomar, o trabalho terapêutico busca ajudá-lo a perceber com maior clareza sua própria experiência.
Mas como isso acontece dentro de uma sessão?
O que é gestalt terapia?
A gestalt terapia é uma abordagem psicoterapêutica desenvolvida a partir da década de 1940, tendo Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman entre seus principais formuladores. Ela surgiu em diálogo com diferentes correntes da psicologia, filosofia e estudos sobre a experiência humana.
Uma de suas características centrais é compreender a pessoa de maneira integrada. Isso significa que pensamentos, emoções, sensações corporais, comportamentos, relações e contexto não são vistos como partes completamente separadas.
A American Psychological Association (APA) descreve a Gestalt-terapia como uma forma de psicoterapia que considera a totalidade do funcionamento e das relações da pessoa, dando especial atenção à experiência no “aqui e agora”.
Por isso, uma pergunta importante nessa abordagem não é apenas “por que isso aconteceu comigo?”, mas também:
“Como isso está acontecendo em mim agora?”
Imagine, por exemplo, alguém que percebe dificuldade em estabelecer limites nas relações. Além de compreender como esse padrão pode ter se desenvolvido ao longo de sua história, a psicoterapia pode explorar como essa dificuldade aparece atualmente: o que a pessoa sente quando pensa em dizer “não”, quais pensamentos surgem, o que percebe no próprio corpo, quais necessidades tenta proteger e como costuma agir diante dessas situações.
Não se trata de procurar uma única causa, mas de ampliar a compreensão da experiência.
O foco no presente significa que o passado não importa?
Essa é uma dúvida bastante comum.
Quando se fala que a gestalt terapia trabalha com o presente, pode parecer que acontecimentos anteriores serão deixados de lado. Não é isso.
O passado não pode ser modificado, mas a maneira como ele continua presente pode ser percebida e trabalhada.
Experiências anteriores podem aparecer na forma como você estabelece vínculos, reage a conflitos, interpreta determinadas situações, percebe a si mesmo ou espera que outras pessoas se comportem.
Nesse sentido, o passado pode chegar à sessão através do presente.
Ao falar sobre uma experiência antiga, por exemplo, talvez você perceba uma emoção surgindo naquele momento, uma mudança na respiração, vontade de evitar determinado assunto ou uma maneira específica de contar aquela história. Todos esses elementos podem ajudar a compreender não somente o que aconteceu, mas também como aquela experiência é vivida hoje.
A atenção ao momento presente é, portanto, uma maneira de entrar em contato com aquilo que está acontecendo na experiência atual da pessoa.
Como funciona uma sessão de gestalt terapia?
Não existe um roteiro único que determine exatamente o que acontecerá em todas as sessões.
Você pode chegar falando sobre uma discussão recente, uma decisão que precisa tomar, dificuldades no trabalho, um relacionamento, uma sensação que não consegue compreender ou até dizendo que não sabe sobre o que falar naquele dia.
A partir disso, terapeuta e paciente constroem juntos o processo.
O psicólogo pode fazer perguntas, chamar atenção para algo que apareceu durante a conversa ou convidar a pessoa a observar determinada experiência com mais cuidado.
Perguntas como estas podem surgir:
“O que você sente enquanto fala sobre isso?”
“O que percebe no seu corpo agora?”
“O que você gostaria de ter dito naquela situação?”
“O que acontece quando você imagina colocar esse limite?”
“De que você sente necessidade nesse momento?”
Essas perguntas não têm uma resposta considerada correta. Elas funcionam como possibilidades de exploração.
A relação entre psicólogo e paciente também ocupa um lugar importante. A Gestalt contemporânea é descrita pela própria APA como uma abordagem relacional, ativa e orientada para o presente, na qual o encontro terapêutico pode funcionar como um espaço seguro para experimentar outras formas de se relacionar.
Isso está de acordo com uma literatura mais ampla sobre psicoterapia. Meta-análises reunidas pela APA apontam a aliança terapêutica, a colaboração, a empatia e o acordo sobre os objetivos da terapia entre os elementos associados a melhores resultados em psicoterapia.
Assim, terapia não é somente aquilo que o profissional “faz” com uma técnica. A maneira como esse processo é construído entre duas pessoas também importa.
Gestalt terapia é só a técnica da cadeira vazia?
Não.
A cadeira vazia provavelmente é uma das técnicas mais conhecidas associadas à abordagem, mas reduzir a gestalt terapia a ela seria como definir toda a psicoterapia por um único recurso.
Na Gestalt, podem ser utilizados diferentes experimentos terapêuticos. Um psicólogo pode, por exemplo, convidar a pessoa a prestar atenção a uma sensação corporal, experimentar outra maneira de expressar algo, imaginar um diálogo ou observar o que acontece emocionalmente diante de determinada situação.
A própria APA cita recursos como dramatização e cadeira vazia entre técnicas historicamente relacionadas à Gestalt.
Entretanto, esses recursos não precisam estar presentes em todas as sessões e não devem ser aplicados de maneira automática.
Um experimento faz sentido quando está relacionado ao que está sendo vivido naquele momento e quando respeita as necessidades, os limites e as características daquela pessoa.
Por isso, talvez você passe várias sessões conversando e refletindo sem realizar nenhuma técnica que pareça particularmente diferente de uma conversa terapêutica.
O objetivo não é produzir uma experiência impactante. É favorecer contato e compreensão.
Autoconhecimento na Gestalt: perceber antes de tentar mudar
Existe uma diferença importante entre saber racionalmente alguma coisa sobre si e conseguir reconhecê-la enquanto ela acontece.
Você pode saber, por exemplo, que costuma evitar conflitos e ainda assim perceber somente depois que novamente concordou com algo que não queria.
Pode entender que determinada relação produz sofrimento e, ao mesmo tempo, sentir dificuldade para compreender por que continua retornando a ela.
Pode saber que precisa descansar e perceber que continua se cobrando mesmo quando está exausto.
A gestalt terapia trabalha bastante com essa ampliação da percepção, frequentemente chamada de awareness.
Em linguagem simples, podemos pensar nisso como desenvolver maior consciência sobre aquilo que acontece dentro e fora de você enquanto vive uma experiência.
Isso inclui perceber emoções, necessidades, pensamentos, sensações corporais, escolhas e formas de se relacionar.
E essa percepção não tem como objetivo criar uma versão “perfeita” de si.
Quanto mais você consegue reconhecer como funciona, mais elementos possui para compreender suas escolhas e avaliar se determinadas maneiras de agir continuam fazendo sentido para sua vida atual.
Para quais questões a gestalt terapia pode ser utilizada?
A Gestalt pode ser utilizada em psicoterapia individual, de casal, familiar e em grupos, dependendo da formação e atuação do profissional.
Pessoas podem procurar acompanhamento por questões relacionadas a ansiedade, autoestima, conflitos nos relacionamentos, dificuldades familiares, mudanças de vida, luto, sofrimento emocional, dificuldades em estabelecer limites ou simplesmente pelo desejo de se conhecer melhor.
Isso não significa afirmar que a abordagem produzirá determinado resultado para todas essas situações.
A pesquisa específica sobre Gestalt possui limitações e é importante não exagerar suas evidências. Uma meta-análise de 38 estudos encontrou resultados favoráveis à Gestalt quando comparada a outros tratamentos, mas os próprios autores destacaram que não era possível estabelecer conclusões definitivas sobre indicações específicas e efeitos de longo prazo.
Além disso, atualmente a prática psicológica baseada em evidências não é compreendida simplesmente como a escolha de uma abordagem. A APA a define como a integração entre as melhores evidências científicas disponíveis, a experiência clínica do profissional e as características, cultura e preferências da pessoa atendida.
Isso ajuda a compreender por que a escolha de um psicólogo envolve mais do que descobrir o nome da abordagem utilizada.
Afinal, como saber se a gestalt terapia faz sentido para você?
Conhecer a abordagem pode ajudar, mas você não precisa compreender toda a teoria psicológica antes de começar uma psicoterapia.
Talvez seja mais importante observar como você se sente naquele espaço.
Você consegue falar sobre assuntos difíceis sem sentir que precisa apresentar uma versão específica de si? Consegue compreender o que está sendo construído no processo? Sente que existe abertura para conversar sobre aquilo que funciona ou não funciona para você?
A psicoterapia é um trabalho colaborativo.
Independentemente da abordagem, pesquisas sobre psicoterapia mostram consistentemente a importância da qualidade da relação terapêutica. Diretrizes da APA destacam que essa relação está associada aos resultados do tratamento em diferentes modalidades e orientações teóricas.
A gestalt terapia acrescenta a esse encontro um convite particular: perceber como você está vivendo aquilo que vive.
Talvez algumas respostas sobre você não estejam apenas na pergunta “por que sou assim?”, mas também em outras:
O que estou sentindo agora?
Do que preciso?
Como tenho construído minhas relações?
O que faço quando minhas necessidades entram em conflito com as do outro?
E o que percebo sobre mim quando realmente presto atenção à minha experiência?
Às vezes, compreender essas perguntas já é parte importante do caminho.
Perguntas frequentes sobre gestalt terapia
1. Gestalt terapia trabalha apenas com o presente?
Não. A abordagem dá atenção especial ao momento presente, mas experiências passadas podem ser exploradas sempre que forem relevantes. O interesse também está em compreender como essas experiências continuam aparecendo atualmente nas emoções, relações, pensamentos e comportamentos da pessoa.
2. Preciso fazer a técnica da cadeira vazia?
Não. A cadeira vazia é apenas um dos recursos que podem ser utilizados. A gestalt terapia não depende dessa técnica e um psicólogo deve avaliar, junto à pessoa atendida, quais intervenções fazem sentido para aquele processo.
3. Quanto tempo dura uma psicoterapia em gestalt terapia?
Não existe uma duração única aplicável a todas as pessoas. O tempo do acompanhamento depende de fatores como a demanda apresentada, os objetivos construídos em terapia, o contexto da pessoa e o desenvolvimento do próprio processo. Essas questões podem ser conversadas diretamente com o profissional responsável pelo atendimento.
Este artigo é informativo. Em caso de sofrimento intenso, procure profissional qualificado.
Referências
American Psychological Association. APA Dictionary of Psychology: Gestalt Therapy.
American Psychological Association. Wheeler, G.; Axelsson, L. Gestalt Therapy. Theories of Psychotherapy Series, 2014.
American Psychological Association. APA Guidelines on Evidence-Based Psychological Practice in Health Care.
American Psychological Association. Policy Statement on Evidence-Based Practice in Psychology.
Bretz, H. J.; Heekerens, H. P.; Schmitz, B. A meta-analysis of the effectiveness of Gestalt therapy. PubMed.