Normatização do sexo nas sociedades antigas: da sexualidade integrada à natureza ao controle do corpo
Ao longo da história, diferentes sociedades estabeleceram normas e formas de controle sobre o corpo e as práticas sexuais, atribuindo significados distintos à sexualidade. Compreender essas transformações permite observar que aquilo que atualmente é percebido como natural ou moralmente determinado é também resultado de processos históricos e sociais. Nesse sentido, este artigo busca discutir a construção da normatização sexual a partir de diferentes sociedades antigas, percorrendo registros da pré-história, das primeiras sociedades agrícolas, da Mesopotâmia e da Grécia Antiga, com especial atenção às formas de controle e significação do corpo da mulher.
O aspecto sexual da mulher constitui um campo simbólico historicamente envolto em disputas discursivas. Ao longo das gerações, determinados dispositivos moldaram a autoperceção feminina nos âmbitos individual e social (FOUCAULT, 1988; FEDERICI, 2017). Para compreender a gênese dessa engrenagem, torna-se necessário retroceder às origens da organização humana. Explicitando a perspectiva de Nunes (2003), os vestígios arqueológicos disponíveis sugerem que esses mecanismos de opressão não estiveram presentes de forma sistemática durante a maior parte do período pré-histórico. Esse entendimento encontra respaldo nas análises realizadas a partir das chamadas "Vênus paleolíticas", frequentemente associadas à fecundidade, embora Marquetti e Funari (2014) ponderem que a atribuição exclusiva de uma função reprodutiva consistiria em uma simplificação teórica. Caracterizadas por traços anatômicos acentuados, com destaque para ventres amplos e quadris proeminentes, as esculturas revelam uma orientação voltada à afirmação de significações internas e à abundância protetiva da vida, afastando-se da mera contemplação externa. Ademais, a recorrente ausência de traços faciais corrobora a tese de que o artefato materializava um conceito abstrato e uma centralidade somática simbólica, sem a intenção de retratar indivíduos específicos.
Paralelamente, a pintura rupestre exibe o ato sexual de maneira explícita, mediante cenas marcadas pela fusão de figuras humanas e animais. Essa iconografia demonstra que a sexualidade se articulava a atividades vitais, como a caça, integrando os ciclos dinâmicos da existência. Esse conjunto de elementos expressava uma cosmologia na qual a matéria orgânica situava-se de forma constitutiva em relação à natureza. Tanto é assim que a análise dos registros realizada por Santos (2019) não identifica evidências de que o gozo fosse percebido como algo vergonhoso ou ameaçador para a coletividade. Na ótica do autor, a fruição da mulher surgia como uma necessidade associada à fertilidade, de modo que, em condições de sobrevivência estritamente dependentes da reprodução, a atividade encontrava-se fortemente associada aos interesses coletivos do grupo (SANTOS, 2019).
Esse panorama de menor evidência de normatização sexual sistemática, contudo, alterou-se com a transição para o sedentarismo. Segundo Pilão (2025), determinadas interpretações socioantropológicas associam a intensificação da normatização sexual ao surgimento das primeiras sociedades agrícolas. O período histórico em questão gerou excedentes produtivos que, por consequência, viabilizaram o acúmulo patrimonial e a consolidação da propriedade. Diante dessa nova organização econômica, o monitoramento do corpo feminino adquiriu valor estratégico para assegurar a transmissão de herança mediante uma descendência legítima. O imperativo de fidelidade inseriu a mulher em mecanismos de controle direcionados à reprodução, funcionando como base indispensável para a manutenção das hierarquias estabelecidas (FEDERICI, 2017).
Refletindo esse novo ordenamento, nas cidades mesopotâmicas as práticas eróticas integravam ritos religiosos de fertilidade, o que inscreveu a carne em âmbitos ritualísticos por meio dos quais se mediava a relação entre a humanidade e as divindades. Estabeleceu-se, assim, uma divisão entre a esfera doméstica, voltada à transmissão patrimonial, e as manifestações ritualísticas desvinculadas da propriedade, separação que fomentou hierarquias morais e distinções de valor social (SANTOS, 2019).
Esse monitoramento institucional ganhou novos contornos na Grécia Antiga, onde, segundo Andrade (2017), o prazer ocorria sem os tabus modernos, com grande expressão nas artes e na sociabilidade, embora mudasse de acordo com a posição social. No simpósio, o debate sobre política e erotismo tornava a figura masculina o objeto principal de valorização, de modo que o envolvimento entre parceiros do mesmo sexo acontecia abertamente, visto que as noções contemporâneas de homossexualidade inexistiam como padrões de identidade. Assim sendo, a prática sexual traduzia diretamente a estratificação da pólis, pois a avaliação do coito fundamentava-se na prática da penetração, e não no gênero. O ato penetrativo carregava um estatuto ativo e dominante associado ao masculino, independentemente da anatomia do parceiro, enquanto a passividade refletia apenas as hierarquias vigentes. No cidadão apto ao exercício político, a submissão física ao coito sofria severa interdição, sendo esse lugar subalterno reservado a sujeitos destituídos de masculinidade plena, como escravizados, estrangeiros e mulheres.
Consequentemente, a população feminina, excluída da vida pública, figurava em recolhimento e afastada da visibilidade erótica, já que a presença respeitável se restringia ao espaço doméstico e à reprodução. Esse modelo associava a penetração a relações assimétricas de poder que promoviam o silenciamento do prazer da mulher. Contudo, paralelamente na Grécia Antiga, a hetaira ocupava um lugar singular ao oferecer companhia intelectual e sexual a homens influentes e integrar debates na pólis, prerrogativa vetada às esposas pelo rígido separatismo de gênero. Essa dinâmica revela que, mesmo diante de uma relativa permissividade sexual em determinados grupos, a organização social já operava por meio do controle da corporeidade feminina para interditar severamente a atuação das mulheres nos domínios políticos (ANDRADE, 2017; SANTOS, 2019; MARTINS, 2025).
Assim, estudo das sociedades antigas mostra que a sexualidade nunca existiu de forma isolada das dinâmicas sociais da época. Pelo contrário, as formas de expressão e ideias sobre a intimidade humana e as regras de comportamento sempre refletiram o funcionamento geral de cada período histórico. Nesse cenário, as mulheres ocuparam um papel estratégico na preservação daquela ordem social, ganhando ainda mais peso quando o controle da herança e da linhagem virou prioridade. Disso decorre que a sexualidade é uma construção histórica, com os sentidos dados ao desejo e à corporalidade sendo moldados de forma direta pelas forças sociais e pelas relações de poder vigentes.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Tiago Souza Monteiro. O relacionamento homoerótico na Grécia Antiga: uma prática pedagógica. Faces da História, v. 4, n. 2, p. 58-72, 2017. Disponível em: https://seer.assis.unesp.br/index.php/facesdahistoria/article/view/271/835
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017. Disponível em: https://sites.usp.br/fabulacoesdafamiliabrasileira/wp-content/uploads/sites/1073/2023/05/Silvia-Federici-Caliba-e-a-bruxa-Mulheres-corpo-e-acumulacao-primitiva.pdf
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/1226/foucault_historiadasexualidade.pdf
MARQUETTI, Flávia Regina; FUNARI, Pedro Paulo. Sexualidade e sentimento religioso no Paleolítico: narrativas elementares de hierogamias entre as Vênus e os animais. Revista Alétheia, v. 9, n. 1, p. 55-69, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/aletheia/article/view/6197/4907
MARTINS, Alessandra Affortunati. A palavra das mulheres como phármakon: uma leitura arqueológica. Kriterion: Revista de Filosofia, v. 66, n. 161, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/kr/a/CsjgQRdQk8bvWrDcybgbbfS/?lang=pt
NUNES, César Aparecido. Desvendando a sexualidade. Campinas: Papirus, 2003. Disponível em: https://professor.pucgoias.edu.br/SiteDocente/admin/arquivosUpload/1258/material/Cesar%20A%20Nunes%20-%20Desvendando%20A%20Sexualidade.pdf
PILÃO, Antonio. As “origens” da família. Revista Periódicus, v. 1, n. 21, p. 219-244, 2025. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/58760/36940
SANTOS, Fausi dos. Corpo e sexualidade em diferentes suportes: da pré-história à era digital. 2019. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/bb7430c1-052c-4f70-880ca62924a00dc5/content