O IMPACTO PSICOLÓGICO DA VIOLÊNCIA POR PARCEIRO ÍNTIMO (VPI) NO CONTEXTO FAMILIAR PARA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA
INTRODUÇÃO
A violência é um fenômeno multifacetado que se manifesta de diferentes formas e em distintos contextos sociais. Segundo a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), adotada pelo Ministério da Saúde brasileiro, ela é compreendida como “o uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação” (KRUG et al., 2002, apud Ministério da Saúde, 2010).
Sendo assim, a violência por parceiro íntimo impacta não somente a mulher, mas também os filhos que convivem no mesmo ambiente. Crianças que vivenciam a violência experienciada por suas mães não apenas testemunham o seu sofrimento, mas podem apresentar diversas consequências tanto no curto quanto no longo prazo, pois crescer em contextos familiares disfuncionais pode afetar o desenvolvimento emocional, social e psicológico da criança (Araújo, Nivea Carolina Tavares, et al, 2018).
A infância é um período extremamente importante e determinante para o desenvolvimento. A exposição constante a situações de medo, tensão e instabilidade pode provocar uma série de consequências psicológicas. A violência emocional costuma ocorrer juntamente com outras modalidades de violência intrafamiliar (Finkelhor et al., 2007 apud HENRIQUES, Catarina Gordiano Paes; DUTRA-THOMÉ, Luciana; ROSA, Edinete Maria., 2022). Qualquer forma de agressão dirigida a crianças e adolescentes representa um fator de risco para o seu desenvolvimento (Thoresen et al., 2015 apud HENRIQUES, Catarina Gordiano Paes; DUTRA-THOMÉ, Luciana; ROSA, Edinete Maria., 2022). Apesar do sofrimento infantil diante da violência doméstica estar presente em diversas realidades familiares, nem sempre é possível visualizá-lo e compreendê-lo em sua totalidade.
Este artigo busca estudar os efeitos da violência por parceiro íntimo perpetrada no ambiente familiar para o desenvolvimento da criança, reconhecendo que, além do cuidado com a mulher em situação de violência, é necessário olhar para os filhos que crescem inseridos nesse contexto. Este estudo pretende centralizar a criança como sujeito de impacto psicológico indireto da violência sofrida pela mãe, algo que, embora reconhecido por alguns estudos, ainda carece de maior aprofundamento e visibilidade.
Neste sentido, o presente artigo possui como objetivo analisar o impacto psicológico observado em crianças que convivem com mães vítimas de violência por parceiro íntimo. Além disso, identificar os principais fatores de risco para crianças inseridas em um contexto de violência, bem como analisar como a exposição a situações de violência pode influenciar na formação da identidade, das relações afetivas e das competências socioemocionais das crianças. E, por fim, discutir sobre estratégias de proteção, cuidado e prevenção para essas crianças, contribuindo para que profissionais da saúde, assistência social e educação possam planejar intervenções para lidar com a violência.
MÉTODOO presente estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura, cujo objetivo é reunir, analisar e discutir produções científicas que abordam a saúde mental de crianças em contextos de violência doméstica. Essa modalidade de revisão possibilita a construção de uma síntese crítica do conhecimento disponível, permitindo maior aprofundamento teórico acerca da temática proposta.
Para a seleção do material, foram considerados artigos originais, artigos de revisão, artigos originais e livros, publicados no período de 2010 a 2025, no idioma português. Como critérios de exclusão, optou-se por não incluir teses, dissertações, relatos de caso e publicações anteriores ao ano de 2010, por se considerar que tais materiais não atenderiam aos objetivos delineados na presente investigação.
As buscas bibliográficas foram realizadas nas bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Utilizaram-se como descritores/palavras-chave: saúde mental, criança, mães, VPI, e violência doméstica, empregados por meio da estratégia booleana: crianças E mães E violência doméstica.
Adicionalmente, foram aplicados filtros de seleção, de modo a restringir os resultados a artigos originais, artigos de revisão e livros, publicados em português e inglês e dentro do período estabelecido. Dessa forma, buscou-se garantir a pertinência, atualidade e relevância do material selecionado para responder ao objetivo da pesquisa.
RESULTADOS
A análise dos artigos selecionados permitiu identificar diferentes aspectos relacionados aos impactos da violência por parceiro íntimo (VPI) no desenvolvimento de crianças e adolescentes. Os estudos abordam desde as consequências emocionais, comportamentais e cognitivas da exposição à violência no ambiente familiar até os desafios enfrentados pelas mulheres-mães e pelas redes de proteção.
Araújo et al. (2024), em uma revisão integrativa da literatura, analisaram dez artigos com o objetivo de compreender os impactos psicossociais sobre filhos de mulheres vítimas de violência praticada por seus parceiros. Os resultados apontaram que a exposição à violência durante a infância e a adolescência pode trazer consequências para o desenvolvimento físico e cognitivo, além de comprometer a saúde mental e o ajustamento social dessas crianças e adolescentes.
Na mesma perspectiva, Henriques, Dutra-Thomé e Rosa (2022), ao realizarem uma revisão sistemática sobre a violência emocional intrafamiliar contra crianças e adolescentes, identificaram que essa violência frequentemente aparece associada a outras formas de agressão, como a física e a sexual, além da negligência e da violência entre os pais. A revisão contemplou estudos realizados em 26 países, com predominância de pesquisas desenvolvidas no Brasil e nos Estados Unidos. Entre as principais repercussões identificadas, destacaram-se ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), insegurança e vergonha, demonstrando que a violência vivenciada no ambiente familiar pode produzir consequências que ultrapassam a infância e permanecem na vida adulta.
Pires, Silva e Assis (2012) investigaram os fatores associados ao transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças, considerando aspectos relacionados ao ambiente familiar. Os resultados demonstraram maior prevalência do transtorno em crianças que viviam em famílias com disfunções nas relações, quando comparadas àquelas inseridas em ambientes familiares com melhores condições de convivência. O estudo também identificou uma prevalência significativamente maior de TDAH entre crianças que sofriam agressões verbais por parte das mães, evidenciando a relação entre a dinâmica familiar e o desenvolvimento infantil.
Outro aspecto importante foi investigado por Mezzavilla et al. (2021), que analisaram a relação entre a violência física entre parceiros íntimos e as práticas de alimentação infantil durante o primeiro ano de vida. A pesquisa foi realizada com 217 crianças e identificou que os casais que apresentavam episódios de violência tinham maior probabilidade de não oferecer leite materno aos filhos, além de utilizarem com maior frequência substitutos do leite materno e mamadeiras. Esses resultados demonstram que a violência pode atingir o desenvolvimento infantil desde os primeiros meses de vida, interferindo não apenas nos aspectos emocionais, mas também nos cuidados básicos e na alimentação da criança.
Cleto, Covolan e Signorelli (2019) buscaram compreender a experiência de duas mulheres-mães negras em situação de vulnerabilidade e violência doméstica que enfrentavam dificuldades relacionadas à guarda de seus filhos durante o acolhimento institucional. Os resultados evidenciaram como as desigualdades sociais, raciais e de gênero podem dificultar o acesso aos direitos e à proteção dessas mulheres e crianças. O estudo também apontou desafios na articulação entre os diferentes setores responsáveis pelo atendimento, demonstrando a importância de uma rede de proteção integrada e sensível às necessidades das famílias.
A influência das experiências familiares na reprodução de comportamentos violentos foi abordada por Magalhães et al. (2021). Os autores investigaram os significados atribuídos à dinâmica familiar por homens que reproduziram a violência doméstica vivenciada durante a infância. As narrativas demonstraram que experiências de agressões físicas, psicológicas, negligência e testemunho da violência entre os pais influenciaram a maneira como esses homens compreendiam as relações familiares na vida adulta. Os resultados indicaram a reprodução de padrões baseados no controle e na dominação masculina sobre as esposas e os filhos, evidenciando a possibilidade de continuidade da violência entre gerações.
Santos et al. (2023) investigaram as repercussões psicológicas percebidas por mães em crianças e adolescentes após o afastamento paterno decorrente de situações de violência conjugal. A pesquisa foi realizada por meio de entrevistas com oito mulheres que haviam vivenciado esse contexto. A partir das narrativas maternas, foram identificadas três categorias de repercussões: emocionais, comportamentais e psíquicas. Os resultados demonstraram que o afastamento paterno, embora relacionado à necessidade de proteção diante da violência, também pode estar associado a diferentes manifestações de sofrimento infantil, reforçando a importância do acompanhamento e do suporte psicológico.
No que diz respeito às estratégias de intervenção, Otaguiri, Siqueira e D’Affonseca (2022) realizaram uma revisão sistemática da literatura com o objetivo de analisar intervenções desenvolvidas com grupos de mães e filhos expostos à violência por parceiro íntimo. O estudo destaca a importância de intervenções voltadas conjuntamente às mulheres e às crianças, considerando que a saúde emocional materna influencia a qualidade do vínculo estabelecido com os filhos e pode comprometer as práticas parentais positivas. Dessa forma, o suporte psicossocial apresenta-se como uma importante estratégia de proteção e prevenção de consequências relacionadas à exposição à violência.
Por fim, Durand et al. (2011) analisaram a associação entre a exposição à violência por parceiro íntimo contra a mulher e a presença de problemas comportamentais e escolares nos filhos. Os resultados identificaram que a exposição materna à violência grave estava associada a dificuldades escolares e comportamentais nas crianças, especialmente manifestações de agressividade. Essa relação permaneceu mesmo após o controle de fatores sociodemográficos e familiares, sendo a saúde mental materna identificada como um importante mediador dessa associação.
De maneira geral, os estudos analisados demonstram que a violência por parceiro íntimo ultrapassa a relação conjugal e produz repercussões em diferentes dimensões do desenvolvimento infantil. As pesquisas evidenciam consequências emocionais, comportamentais, cognitivas e sociais, além de apontarem a influência da saúde mental materna, da dinâmica familiar e das condições de proteção disponíveis. Também se destaca a importância de intervenções que considerem tanto as necessidades das mulheres quanto as de seus filhos, fortalecendo os vínculos familiares e as redes de apoio.
Consequências da VPI para o desenvolvimento da criança
A violência doméstica é um fenômeno complexo e multifacetado, que atinge diversas camadas da sociedade, estando presente em todos os níveis socioeconômicos, culturais e étnicos. De acordo com a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), essa violência pode ser física, psicológica, sexual, patrimonial e moral, e, na maioria das vezes, ocorre de forma silenciosa, dentro do espaço privado da residência. A mulher, quando vítima de violência doméstica, vivencia experiências traumáticas contínuas que afetam sua saúde física e mental, sua autoestima e sua capacidade de proteção e cuidado com os filhos.
Crianças e adolescentes podem estar inseridos em situações de violência de diversas formas, sendo elas diretas ou indiretas, o que tende a afetá-los psicologicamente. Eles podem ser fortemente impactados emocionalmente ao presenciarem episódios de violência entre os pais no ambiente familiar. Segundo Mezzavilla et al. (2021, p. 1959), o impacto da violência no desenvolvimento da criança pode começar desde a sua primeira etapa de vida, a primeira infância. Mulheres em situação de violência doméstica podem possuir dificuldades na amamentação, pois, ao sofrerem maus-tratos, podem desenvolver baixa autoestima, perda de autonomia e dificuldades físicas e psicológicas para realizar tarefas cotidianas, como selecionar e preparar os alimentos do bebê. Como consequência, podem acabar optando por oferecer leite artificial aos seus filhos.
O contato carinhoso e a qualidade da interação mãe-bebê podem ficar prejudicados se a mãe estiver em situação de violência por parceiro íntimo. Quando o aleitamento materno é afetado pelas questões da violência, pode prejudicar também o vínculo da mãe com o bebê, pois a alimentação envolve tanto aspectos físicos quanto emocionais (Mezzavilla, Raquel de Souza. et al., 2021)
Outra consequência importante de testemunhar a violência por parceiro íntimo é o desenvolvimento de problemas de comportamento. Quando o ambiente familiar, ao invés de ser um espaço de proteção, segurança e afeto, acaba sendo um lugar de medo, risco e insegurança, compromete o desenvolvimento emocional e psicológico infantil. Nessas circunstâncias, é comum que desenvolvam comportamentos de natureza externalizante e internalizante (Pires, Thiago de Oliveira; Silva, Cosme Marcelo Furtado Passos da; Assis, Simone Gonçalves de, 2012).
No decorrer da infância, a formação da personalidade está intimamente relacionada às interações sociais e familiares, compondo um processo de desenvolvimento psicossocial. Crianças e adolescentes expostos à violência podem manifestar emoções de forma desorganizada, podendo apresentar sinais de transtornos psíquicos, como depressão e ansiedade. Além disso, quando a figura materna está emocionalmente fragilizada, a criança pode não encontrar o suporte emocional necessário, o que agrava o risco de desenvolver comportamentos agressivos ou impulsivos. A impulsividade está frequentemente associada ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), sendo descrita como a tendência da criança a agir sem pensar, apresentar dificuldade em concluir tarefas e demonstrar comportamentos agitados e desatentos. Estudos indicam que a impulsividade, quando relacionada a ambientes familiares disfuncionais ou marcados por violência verbal e física, pode se intensificar e contribuir para o surgimento de problemas psicossociais na infância (Pires, Thiago de Oliveira; Silva, Cosme Marcelo Furtado Passos da; Assis, Simone Gonçalves de., 2012).
No Brasil, estudos populacionais identificaram que a exposição à violência por parceiro íntimo está associada a comportamentos disfuncionais, agressividade e problemas escolares em crianças de 5 a 12 anos. A saúde mental materna foi identificada como um fator importante, mostrando que a violência afeta não apenas diretamente os filhos, mas também indiretamente, através da fragilidade emocional da mãe (DURAND, Julia Garcia et al., 2011).
Outro aspecto importante a ser considerado é que a violência vivenciada na infância pode repercutir na forma como os indivíduos compreendem a dinâmica familiar na vida adulta. Homens que cresceram em lares marcados por agressões físicas, psicológicas ou negligência tendem a reproduzir tais comportamentos em seus próprios relacionamentos, reforçando a ideia de que a família deve ser regida pelo controle masculino. Esse dado aponta para a urgência de estratégias que possibilitem a ressignificação das interações violentas desde a infância, de modo a romper com o ciclo transgeracional da violência (MAGALHÃES, Júlia Renata Fernandes de. et al., 2021).
O papel das políticas públicas e serviços de apoio
A repetição da violência pode ocorrer não apenas pela reprodução de comportamentos observados, mas também pela ausência de vínculos afetivos seguros e de um ambiente que favoreça o desenvolvimento emocional saudável. Intervenções preventivas e suporte psicossocial à família são, portanto, fundamentais para interromper esse ciclo e promover uma convivência familiar baseada no respeito, no cuidado e no diálogo, sendo assim, um fator de proteção para crianças inseridas nesse contexto (OTAGUIRI, Alliny Tiemi Moia; SIQUEIRA, Aline Cardoso; D’AFFONSECA, Sabrina Mazo, 2022).
Esse suporte pode se dar através de um acolhimento institucional, como o desenvolvimento de uma rede de apoio eficaz, por meio de políticas e programas que incentivem a autonomia e ofereçam condições adequadas para que essas mulheres possam cuidar de seus filhos com segurança e dignidade. Assim, o atendimento adequado às mulheres em situação de violência exige uma rede articulada e funcional, envolvendo os setores da assistência social, justiça, segurança pública e saúde (CLETO, Mirna; Covolan, Nadia; SIGNORELLI, Marcos Cláudio, 2019).
Pesquisas mostram que o afastamento paterno, decorrente de medidas protetivas em contextos de violência conjugal, pode gerar repercussões emocionais, comportamentais e psíquicas em crianças e adolescentes. De acordo com narrativas maternas, esses impactos incluem dificuldades emocionais, alterações de comportamento e sofrimento psicológico, reforçando a necessidade de apoio psicológico especializado para esse público (SANTOS, Joana D’arc Ferreira Lopes. et al., 2023).
A saúde emocional da mãe vítima de violência exerce influência direta na qualidade do vínculo estabelecido com os filhos, podendo comprometer práticas parentais positivas e o suporte emocional necessário ao desenvolvimento saudável (OTAGUIRI, Alliny Tiemi Moia; SIQUEIRA, Aline Cardoso; D’AFFONSECA, Sabrina Mazo, 2022).
DISCUSSÃO
A partir dos dados apresentados, é possível compreender que a exposição de crianças à violência por parceiro íntimo (VPI) traz consequências profundas para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Quando a criança cresce em um ambiente onde o medo, a tensão e a agressividade são constantes, ela passa a perceber o mundo como um lugar inseguro, o que compromete a construção de vínculos afetivos saudáveis e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Estudos recentes evidenciam que a violência intrafamiliar, mesmo quando não há agressão física direta, está associada a repercussões psicológicas significativas, como ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades na regulação emocional (HENRIQUES, Catarina Gordiano Paes; DUTRA-THOMÉ, Luciana; ROSA, Edinete Maria. 2022). Além disso, a exposição precoce à violência interfere negativamente na capacidade de socialização e na percepção de segurança da criança (SANTOS, Daniela Palmela dos; MATOS, Honorinda de; COSTA, Denise dos Anjos, 2024).
A Teoria da Aprendizagem Social de Albert Bandura (1989) apud Papalia e Feldman (2013) ajuda a compreender parte desse processo. Segundo o autor, os comportamentos humanos são aprendidos por meio da observação e imitação de modelos significativos, especialmente aqueles presentes no ambiente familiar. Assim, quando a criança testemunha atos de violência entre os pais, tende a reproduzir ou internalizar essas condutas como forma natural de se relacionar. Então, se o comportamento agressivo é percebido como uma forma eficaz para obter poder ou controle, ele tende a ser repetido.
Essa compreensão explica porque muitas vezes o ciclo da violência se repete entre gerações, pois a criança que vivencia a violência cresce acreditando que esse é um modo de resolução de conflitos. Papalia e Feldman (2013) destacam que o ambiente familiar exerce papel essencial na formação dos padrões comportamentais e emocionais, sendo o espaço em que a criança aprende as primeiras formas de expressão, afeto e regulação emocional. Quando esse ambiente é hostil e permeado por agressões, a aprendizagem social se dá a partir de modelos disfuncionais. Nesse sentido, HENRIQUES, Catarina Gordiano Paes; DUTRA-THOMÉ, Luciana; ROSA, Edinete Maria (2022) ressaltam que o convívio em um ambiente familiar violento constitui um dos principais fatores de risco para a perpetuação da violência, já que a criança aprende a interpretar a agressividade como uma forma legítima de controle e comunicação.
Além disso, Bandura (1989) apud Papalia e Feldman (2013) ressalta que o aprendizado não ocorre apenas pela observação, mas também pela forma como o indivíduo interpreta essas experiências e pelos reforços emocionais que recebe. Em contextos de violência, o ambiente familiar se torna imprevisível e desorganizado, dificultando o desenvolvimento de autoeficácia, ou seja, da crença na própria capacidade de agir sobre o mundo e lidar com desafios. Com isso, a criança pode desenvolver sentimentos de impotência, medo e insegurança, o que impacta seu desempenho escolar e suas relações sociais. O estudo de Pinto Júnior et al. (2015) indica que crianças expostas à violência doméstica apresentam maior vulnerabilidade emocional e menor desempenho escolar, devido à presença de sintomas psicossomáticos.
Outro ponto importante é o papel da figura materna nesse processo. Como mencionado por Papalia e Feldman (2013), o vínculo afetivo inicial entre mãe e bebê é fundamental para o desenvolvimento emocional e social da criança. Mulheres em situação de violência tendem a apresentar fragilidade emocional e dificuldades nas práticas parentais, o que afeta diretamente essa relação. Essa fragilidade interfere na forma como a criança aprende sobre afeto, confiança e cuidado. A ausência de um modelo positivo e acolhedor pode levar à desorganização emocional e a comportamentos impulsivos ou agressivos. Um estudo demonstrou que a exposição à violência na primeira infância afeta diretamente e de forma negativa à regulação emocional e à formação do apego seguro, reforçando a importância da parentalidade positiva como estratégia de proteção (PERES, Aneís Louise, et al., 2025).
Além da violência física, a agressividade verbal e psicológica dos modelos parentais também exercem influência significativa sobre o comportamento infantil. Segundo Oliveira et al. (2023), a agressividade verbal dos pais é frequentemente internalizada pela criança, afetando sua autoeficácia, autoestima e forma de reagir a conflitos. Essa constatação reforça a perspectiva de Bandura (1989) apud Papalia e Feldman (2013) de que a observação de comportamentos agressivos (mesmo sem violência física) atua como um modelo de conduta a ser aprendido e reproduzido.
O ambiente familiar deveria ser um espaço de segurança e afeto, onde a criança pudesse aprender valores de respeito, empatia e cooperação. Quando esse ambiente se torna ameaçador, haverá prejuízos na formação da personalidade e na construção da identidade. Muitas vezes, crianças expostas à violência assumem papéis que não lhes cabem, como o de responsáveis e/ou mediadoras de conflitos, o que gera sobrecarga emocional e maturidade precoce. Essas inversões de papéis parentais são frequentemente observadas em contextos de violência doméstica, contribuindo para a cristalização de padrões de comportamento marcados pela ansiedade e pela culpa.
A partir da perspectiva de Bandura (1989) apud Papalia e Feldman (2013), é possível afirmar que a intervenção social e psicológica precisa oferecer novos modelos de comportamento e convivência. Ou seja, é fundamental que a criança e sua família tenham acesso a espaços de acolhimento e suporte emocional, onde possam aprender formas saudáveis de lidar com frustrações e conflitos. A presença de figuras de referência positivas pode ajudar na superação de experiências traumáticas e na construção de novas formas de aprendizagem social. De acordo com Pinto Júnior et al. (2015), programas realizados nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) têm obtido resultados significativos ao promover a convivência familiar e comunitária por meio da observação de modelos positivos, fortalecendo o desenvolvimento emocional e social de crianças expostas à violência.
Portanto, romper com o ciclo da violência exige mais do que o afastamento físico do agressor. É preciso criar condições para que a criança possa observar e vivenciar relações baseadas no cuidado, no diálogo e na empatia, reconstruindo sua percepção sobre si mesma e sobre o outro. Assim, a aprendizagem social se torna um caminho potente para transformar experiências de dor em possibilidades de crescimento e resiliência. Ao proporcionar contextos educativos e terapêuticos que priorizem o afeto, a escuta e o vínculo, torna-se possível reconstruir trajetórias marcadas pela violência e favorecer o desenvolvimento integral da criança.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise realizada, fica evidente que a violência por parceiro íntimo, além de impactar a relação conjugal, impacta também diretamente o desenvolvimento das crianças que convivem nesse ambiente. A infância, sendo um período marcado pela formação da identidade, das relações afetivas e das primeiras aprendizagens sociais, sofre impactos profundos quando vivida em um contexto permeado por medo, tensão e insegurança. A criança que presencia episódios de violência entre seus cuidadores passa a interpretar o mundo como um lugar pouco confiável, o que pode comprometer sua capacidade de estabelecer vínculos saudáveis, regular emoções e desenvolver habilidades socioemocionais importantes.
Observou-se também que a fragilidade emocional da mãe em situação de violência influencia diretamente a dinâmica familiar. Quando a mulher se encontra fragilizada ou sobrecarregada, sua disponibilidade afetiva e suas práticas parentais podem ser prejudicadas desde a gestação, o que repercute na forma como a criança compreende o cuidado, o afeto e a proteção. Isso mostra que cuidar da mulher é também cuidar da criança, já que ambas vivem as consequências da violência de maneira integrada.
Outro ponto importante diz respeito ao risco de continuidade do ciclo de violência. Crianças que crescem em ambientes disfuncionais podem carregar para a vida adulta padrões de comportamento aprendidos ao longo da infância, conforme observaram em seu dia a dia. Isso reforça a importância de intervenções que possibilitem novas formas de convivência, promovendo relações baseadas no respeito, no diálogo e no cuidado. Quando a criança encontra ambientes seguros e figuras de referência positivas podendo ser uma fator de segurança, torna-se possível que essa criança seja mais resiliente diante ao contexto em que vive.
Por fim, este estudo reforça a necessidade de uma rede de proteção que funcione de forma articulada e sensível às demandas tanto da mulher quanto de seus filhos, além de ser importante também trabalhar com o agressor. A violência doméstica é um fenômeno complexo e exige respostas igualmente complexas, capazes de acolher, orientar e oferecer condições reais de segurança e reconstrução. Garantir proteção e suporte às famílias é um passo fundamental para romper o ciclo da violência e promover um desenvolvimento infantil digno e saudável.