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Psicologia Financeira: Dinheiro, Crenças e Saúde Mental

27/08/2026

Resumo

Decisões financeiras equivocadas podem surgir tanto no cotidiano de um consumidor, como compras impulsivas ou investimentos mal planejados, quanto na gestão empresarial, quando escolhas estratégicas sem embasamento comprometem a sustentabilidade do negócio. Este estudo investiga como esses comportamentos se formam e como afetam a vida financeira e a saúde mental dos indivíduos. Na pesquisa foi realizada uma revisão narrativa, baseada em literatura científica e acadêmica nacional e internacional. O estudo integrou conceitos da Psicologia Financeira e da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), analisando como os atalhos mentais influenciam as decisões financeiras. Ainda, durante o estudo foi possível observar que interpretações distorcidas, hábitos enraizados e resistência à mudanças são a fonte de muitos problemas financeiros.


Palavras-chave:  Psicologia Financeira; Atalhos Mentais; Vieses Cognitivos; Crenças e Dinheiro; Terapia Cognitivo Comportamental.


Introdução

O dinheiro exerce um papel central na vida humana, indo muito além de um recurso para a sobrevivência, é também um símbolo cheio de significados afetivos, sociais e de identidade. A forma como os indivíduos se relacionam com o dinheiro envolve uma complexa teia de crenças, emoções e comportamentos, influenciados por fatores históricos, familiares, culturais e subjetivos. Nesse contexto, estudos demonstraram que os indivíduos não decidem de forma totalmente racional, mas são guiados por atalhos mentais que podem levar a erros sistemáticos. Esses atalhos, conhecidos como vieses cognitivos, afetam diretamente a forma como avaliamos riscos, ganhos e perdas (Kahneman & Tversky, 1974; Klontz et al., 2011; Reis & Moura, 2013). 

Daniel Kahneman recebeu o Prêmio Nobel de Economia, em 2002, por seus trabalhos que fundaram a base da psicologia financeira, especialmente a teoria dos vieses cognitivos no processo decisório. Seu colega e amigo, Amos Tversky contribuiu de forma fundamental, eles trabalharam juntos desde 1960 nessa pesquisa, infelizmente faleceu em 1996, seis anos antes do prêmio, mas foi reconhecido e homenageado pela comunidade científica por suas contribuições. Juntos, Kahneman e Tversky transformaram a forma como entendemos as decisões humanas, principalmente no campo financeiro.

Já no campo mais subjetivo, estudos demonstram que a forma como uma pessoa lida com o dinheiro está frequentemente ligada a crenças aprendidas na infância, muitas vezes inconscientes, que moldam padrões de comportamento como consumo compulsivo, aversão ao planejamento, endividamento crônico ou busca excessiva por segurança financeira . Essas crenças podem contribuir para o sofrimento psíquico, gerando sentimentos de culpa, inadequação ou fracasso diante de dificuldades econômicas percebidas, é necessário destacar a palavra “percebidas” pois muitas vezes essas dificuldades financeiras já foram superadas, porém os indivíduos agem como se elas ainda existissem . Este artigo analisa como vieses cognitivos e crenças financeiras disfuncionais influenciam decisões de consumidores, empresários e investidores, seus impactos sobre a saúde mental e como intervenções terapêuticas, especialmente a Terapia Cognitivo Comportamental, podem identificar pensamentos automáticos e reformular crenças disfuncionais (Beck, 2021; Klontz et al., 2011).

Fundamentos da Psicologia Financeira

A psicologia financeira é um campo que estuda como pensamentos, emoções, crenças e comportamentos influenciam a forma como as pessoas lidam com o dinheiro. Diferente da educação financeira, que busca ensinar estratégias de controle e planejamento, a psicologia financeira investiga os processos subjetivos e inconscientes que sustentam atitudes financeiras, muitas vezes disfuncionais. Sendo assim, a psicologia financeira contribuiu para compreender a heurística, isto é, atalhos mentais ou regras práticas que simplificam decisões complexas, permitindo que o cérebro tome decisões rápidas, mesmo com informações limitadas. Dentro da heurística temos os vieses cognitivos que são padrões de pensamento que podem nos levar a interpretar informações de maneira tendenciosa, afetando nossas decisões e julgamentos. Eles são uma parte da natureza humana, mas quando não são reconhecidos e gerenciados, podem levar a erros e decisões equivocadas (Kahneman & Tversky, 1979; Klontz et al., 2011). 

Embora se presuma que o ser humano tome exclusivamente decisões racionais, fatores como personalidade, emoções e expectativas exercem forte influência. Um exemplo é o “efeito manada”, em que o comportamento das pessoas é guiado por influenciadores ou movimentos de mercado. Estudos replicados em diferentes países, incluindo o Brasil, apontam resultados semelhantes, indicando que vieses cognitivos e limitações de aprendizado afetam indivíduos independentemente de nacionalidade, nível de instrução ou educação financeira. Sendo assim, o julgamento humano está sempre sujeito a percepções, convicções e modelos mentais individuais, que moldam as escolhas financeiras. Outro exemplo é a aversão à perda, ou seja, a dor pela perda (financeira) é maior do que o prazer com um ganho equivalente. Sendo assim, os riscos são tomados somente para minimizar prejuízos. Ou seja, na possibilidade de perder, as pessoas arriscam pela chance de não perder, já em relação aos  ganhos, as pessoas são avessas ao risco. Isto explica porque as pessoas “caem” em promoções onde o marketing joga com esses vieses, por exemplo “últimos produtos no estoque”, “promoção imperdível” e “somente esse mês” (Kahneman; Tversky, 1979; Macedo, 2003; Reis & Moura, 2013; Rogers et al. 2008).

Existem dois processos de pensamento: o algorítmico, que exige maior reflexão e maior tempo gasto, o qual é o processo mais funcional, então não será aprofundado neste estudo e o processo heurístico que é um atalho mental, o qual adapta uma ação à experiência pessoal do indivíduo e, se bem-sucedido, tende a se repetir ao longo da vida . Por exemplo, uma pessoa que utilizou o cartão de crédito em um mês difícil e conseguiu pagar a fatura sem dificuldades pode passar a usá-lo sempre que estiver com o orçamento apertado. Com o tempo, pode começar a tratar o limite do cartão como parte do seu salário, o que aumenta o risco de endividamento. Esse atalho mental mostra-se falho porque a mesma ação pode gerar resultados diferentes ao longo do tempo, em algum momento, o valor da fatura pode ultrapassar a capacidade de pagamento, gerando dívidas e juros elevados. Assim, conclui-se  que esses atalhos mentais, embora mais rápidos e práticos, induzem decisões equivocadas, pois não analisam profundamente as variáveis necessárias. A seguir, serão apresentados os vieses cognitivos baseados em estudos de comportamentos de consumidores, empresários e investidores financeiros (Kahneman & Tversky, 1974 e Leković, 2020; Macedo Jr., 2003).

  • Viés da Autoconfiança Excessiva: tendência a superestimar o próprio conhecimento, julgamento ou capacidade de prever eventos.

    • Consumidor acredita que entende melhor que os outros sobre finanças e, por isso, ignora conselhos ou gasta além do planejado achando que conseguirá "se virar depois".

    • Empresário insiste em lançar um produto sem fazer pesquisa de mercado, confiando apenas em sua intuição e experiência passada, mesmo com feedbacks negativos iniciais.

    • Investidor realiza operações arriscadas na bolsa sem estudar o mercado ou diversificar a carteira, acreditando que “já entendeu como o jogo funciona” após alguns ganhos iniciais.

  • Aversão à Perda: as perdas são sentidas com mais intensidade do que os ganhos de valor equivalente.

    • Consumidor paga por um plano de TV por assinatura caro que quase não utiliza, apenas porque “já está há anos com a operadora” e tem medo de perder algum benefício antigo, mesmo sabendo que poderia economizar com um serviço de streaming, prefere evitar a sensação de "abrir mão" do que já possui.

    • Empresário mantém uma filial com prejuízo recorrente, apenas porque já investiu muito nela, evitando fechá-la para “não perder o que já foi gasto”.

    • Investidor mantém ações em queda por anos, na esperança de “recuperar o que perdeu”, mesmo que os fundamentos da empresa tenham piorado e novas oportunidades mais promissoras estejam disponíveis.

  • Viés de Confirmação: buscar e interpretar informações que confirmam crenças pré-existentes, ignorando dados contrários.

    • Consumidor acredita que usar o cheque especial “faz parte da vida” e, ao invés de buscar orientação financeira, consome apenas conteúdos que reforçam que “todo mundo vive no limite”.

    • Empresário, dono de uma loja, acredita que promoções exageradas são a melhor forma de vender, mesmo com dados mostrando prejuízo, ele busca exemplos de empresas famosas que “cresceram oferecendo descontos” para validar sua crença.

    • Investidor só lê análises positivas sobre uma ação que possui, ignorando relatórios ou notícias que alertam sobre riscos e problemas na empresa.

  • Viés do Status Quo: resistência a mudanças, preferência por manter a situação atual, mesmo que mudanças possam trazer melhorias.

    • Consumidor paga tarifas bancárias há anos mesmo sabendo da existência de contas digitais gratuitas, por não querer “mexer com isso agora”.

    • Empresário mantém o mesmo sistema manual de controle de estoque porque “sempre funcionou assim”, mesmo que isso gere retrabalho e perdas.

    • Investidor mantém a mesma carteira de ativos há anos por pura inércia e medo de “mexer no que está funcionando”.

  • Viés de Representatividade: julgar a probabilidade de algo com base em sua semelhança com estereótipos ou experiências passadas.

    • Consumidor assume que uma marca de roupas usada por celebridades é de alta qualidade e compra sem pesquisar, gastando mais do que pretendia.

    • Empresário decide investir em franquias porque viu um conhecido que “ficou rico rápido” com uma delas, sem avaliar o mercado ou o modelo de negócio em si.

    • Investidor compra ações de uma startup de tecnologia só porque se lembra de casos de empresas famosas que cresceram rápido, ignorando que o histórico e as condições de mercado podem ser completamente diferentes.

  • Viés do Efeito de Manada: tomar decisões com base no comportamento da maioria, sem análise crítica.

    • Consumidor compra um celular caro no lançamento porque “todo mundo está comprando”, mesmo sem precisar ou poder pagar.

    • Empresário investe em publicidade em uma rede social só porque concorrentes estão fazendo, sem verificar se seu público realmente está lá.

    • Investidor compra criptomoedas apenas porque “todo mundo está comprando” nas redes sociais, sem entender o ativo ou considerar sua tolerância ao risco.

  • Efeito de Ancoragem: apoiar decisões financeiras com base em um valor inicial, mesmo que esse valor não seja relevante.

    • Consumidor ao ver uma roupa “de R$500,00 por R$200,00”  compra mesmo sem necessidade, achando que fez um ótimo negócio.

    • Empresário define o preço do seu produto com base no que o concorrente cobra (âncora), sem calcular seus próprios custos ou margem de lucro.

    • Investidor se recusa a vender uma ação porque “um dia ela já valeu R$50,00” e acredita que vai voltar a esse valor, mesmo que o cenário econômico e a empresa tenham mudado.

  • Viés de Disponibilidade: supervalorizar informações mais fáceis de lembrar, como notícias recentes ou experiências marcantes.

    • Consumidor: após ver várias reportagens sobre golpes com cartão virtual, uma pessoa decide nunca mais comprar online, mesmo que os preços sejam melhores e essas situações sejam evitáveis.

    • Empresário ouve de outros comerciantes que “ninguém consegue crédito no banco” e nem tenta solicitar financiamento, baseando-se apenas em relatos próximos e não em dados concretos.

    • Investidor depois de ver várias notícias sobre grandes empresas quebrando, um investidor decide vender todas as suas ações e manter apenas dinheiro parado, ignorando indicadores positivos e oportunidades de mercado.

  • Contabilidade Mental: tendência das pessoas a organizar, categorizar e tratar o dinheiro de forma separada e emocional, como se cada tipo de gasto ou fonte de renda estivesse em "caixinhas mentais" distintas.

    • Consumidor gasta sem culpa o dinheiro do 13º salário com presentes e lazer, mesmo tendo dívidas, porque o vê como “dinheiro extra”, não parte do orçamento.

    • Empresário usa o lucro extra da empresa para uma viagem pessoal, enquanto parcela equipamentos essenciais, porque trata o dinheiro do lucro como “bônus que pode gastar” em vez de integrá-lo ao fluxo de caixa da empresa.

    • Investidor recebe dividendos de ações e os considera “dinheiro extra” para gastar, em vez de reinvestir, separando mentalmente esse valor do restante do patrimônio, mesmo que isso prejudique o crescimento total do investimento.

Em resumo, os vieses cognitivos são atalhos mentais automáticos que o cérebro utiliza para lidar com decisões financeiras em contextos de incerteza, sobrecarga de informações ou pressão. Embora úteis para agilizar escolhas, frequentemente resultam em decisões irracionais e prejuízos financeiros, principalmente quando passam despercebidos. Contudo, é importante destacar que os vieses não envolvem necessariamente emoção ou julgamento consciente, ou seja, são atalhos automáticos que influenciam de forma inconsciente e rápida. Além deles, possuímos crenças financeiras que atuam em um nível mais profundo, emocional e estruturante, formando o “sistema de significados”, modo como cada pessoa interpreta, sente e se comporta em relação ao dinheiro ao longo da vida. A seguir, será abordado o conceito de crenças financeiras disfuncionais com base em contribuições teóricas e clínicas que explicam como essas crenças moldam comportamentos de consumo, dívidas, aversão ao planejamento e sintomas de sofrimento psicológico (Kahneman, 2012; Klontz et al. 2011). 

Crenças Financeiras Disfuncionais

As crenças financeiras são mais profundas, formadas ao longo da vida por meio da observação, das mensagens culturais, dos modelos familiares e das experiências vividas com escassez, abundância, conflitos e recompensas envolvendo dinheiro. Diferentemente dos vieses, que são padrões de pensamento comuns a todos, as crenças financeiras são individuais, afetivas e muitas vezes invisíveis para quem as sustenta.  É a partir delas que o dinheiro pode se tornar, para algumas pessoas, um símbolo de amor, medo, poder, controle, vergonha ou liberdade. Ao estudar padrões de pensamento relacionados ao dinheiro, estudos identificaram os chamados roteiros financeiros (money scripts), ou seja, crenças internalizadas que moldam decisões e comportamentos financeiros com forte carga emocional. Esses roteiros são aprendidos de forma implícita e geralmente continuam operando na vida adulta sem questionamento, mesmo quando levam a consequências negativas. Dentre os roteiros financeiros disfuncionais mais comuns, estão (Furnham, 2014; Klontz et al., 2011): 

Evitação do dinheiro: crença de que o dinheiro é sujo, perigoso ou fonte de sofrimento;

Adoração ao dinheiro: ideia de que o dinheiro resolve todos os problemas ou é sinônimo de felicidade;

Vigilância excessiva: necessidade de controle rígido das finanças, muitas vezes associada à ansiedade ou perfeccionismo;

Desmerecimento de status: crença de que pessoas ricas são gananciosas, corruptas ou indignas.

Essas crenças disfuncionais interferem diretamente em comportamentos como o consumo impulsivo, a procrastinação no pagamento de dívidas, a recusa em fazer planejamento financeiro ou o acúmulo compulsivo de dinheiro como símbolo de segurança. Para muitas pessoas, o dinheiro não é apenas um recurso objetivo, ele representa autoestima, controle, proteção, liberdade ou pertencimento e a relação com ele pode refletir feridas emocionais não elaboradas. Alguns exemplos de vivências que contribuem para o desenvolvimento dessas crenças incluem:

Escassez: um indivíduo que cresceu ouvindo frases como “dinheiro não dá em árvore” ou “nunca temos dinheiro para nada” pode desenvolver a crença da vigilância excessiva, tornando-se rígido, ansioso ou até obsessivo com controle de gastos.

Abundância: uma pessoa que teve acesso irrestrito ao dinheiro durante a infância pode desenvolver a adoração ao dinheiro, associando felicidade, valor pessoal ou sucesso à conquista financeira, mesmo em detrimento de relações afetivas ou bem-estar emocional.

Mensagens culturais: no contexto brasileiro, é comum ver novelas, filmes e discursos populares associando riqueza à corrupção ou frieza emocional. Isso pode levar ao desmerecimento de status. Imagine uma pessoa que tem como valor pessoal “ser boa, ética e solidária”, internaliza que ser rica é o oposto disso, poderá (inconscientemente) sabotar o próprio progresso financeiro, seja gastando excessivamente, evitando se destacar no trabalho, não investindo em seu potencial acadêmico ou qualquer atividade que possa levá-la à prosperidade.

Influências religiosas: em contextos fortemente marcados por valores espirituais, interpretações literais de passagens bíblicas podem moldar a relação com o dinheiro. Um exemplo é a frase, “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19:24), pode ser internalizada como um medo da prosperidade material. Para algumas pessoas, essa crença pode gerar culpa ou desconforto ao alcançar estabilidade financeira, levando-as a evitar oportunidades de crescimento, abrir mão de bens e experiências que lhes trariam bem-estar, ou até a adotar comportamentos de auto sabotagem para se manter em um patamar que consideram “espiritualmente seguro”.

Nesse contexto, mesmo que atinja o sucesso, o indivíduo pode sentir culpa, não merecimento ou desconforto com a prosperidade, observemos um caso real que ilustra isso, paciente, mulher, 70 anos, alegava sobrecarga de trabalhos domésticos e cuidados com o marido doente, porém mesmo com dinheiro sobrando não aceitava contratar uma empregada doméstica ou um cuidador para o marido, sua crença era de que pessoas que tinham empregados eram “muito metidas e tratavam mal os outros”. Percebe-se exemplo que alguma experiência pessoal a impede de aceitar a felicidade e a paz que seu dinheiro, adquirido honestamente e com seu próprio trabalho, poderia lhe proporcionar. Essas crenças atuam silenciosamente, sustentando ciclos de sabotagem financeira e sofrimento emocional. Por isso, identificá-las, compreendê-las e reformulá-las é fundamental  para o equilíbrio financeiro e para a saúde mental como um todo  (Furnham, 2014; Klontz et al., 2011). 

Dinheiro e Relação Conjugal

Pesquisas demonstram que o dinheiro exerce um papel central nas relações conjugais, podendo ser uma grande fonte de conflitos. Ele está associado ao afeto, ao compromisso e ao risco de divórcio. Os conflitos costumam ser mais intensos no início do casamento, período em que ocorrem ajustes e negociações financeiras e depois nos anos que antecedem a aposentadoria, quando o casal se depara com os resultados de suas escolhas econômicas ao longo da vida. Nessas fases, diferenças de expectativas e desigualdades de gênero podem potencializar tensões. Estudos apontam uma relação estreita entre finanças e satisfação conjugal: quanto menor o nível de conflito em torno do dinheiro, maior tende a ser a qualidade da relação. Em outro estudo, observa-se a repetição de um modelo financeiro aprendido com suas famílias de origem sobre o significado do dinheiro e a forma de manejá-lo corroborando com os esquemas de crenças aprendidos na infância. A relação entre crenças financeiras disfuncionais e problemas emocionais pode ser observada em casos de endividamento crônico, onde o indivíduo acumula dívidas apesar de tentativas racionais de controle. A dívida não é apenas uma questão numérica, ela atinge diretamente o senso de valor pessoal, a autoestima, os vínculos sociais e relacionais dos indivíduos. (Cenci et al., 2017; Cenci et al., 2018; Richardson et al., 2013). 

Endividamento e Saúde Mental

Diversos estudos demonstram uma correlação significativa entre endividamento e sofrimento psíquico, em uma meta-análise com 65 estudos, identificou que pessoas com dívidas apresentam taxas maiores de sintomas depressivos, ansiedade, abuso de substâncias e suicídio. O endividamento costuma gerar uma sensação de perda de controle e falha pessoal acompanhada de vergonha, culpa e medo de julgamento. Esses sentimentos impactam o sono, a concentração, o apetite e a motivação, criando um ciclo no qual a pessoa evita lidar com o problema financeiro, o que por sua vez aumenta o descontrole e o sofrimento psíquico. Ao contrário da visão simplista que associa dívidas apenas à má administração, a literatura aponta que fatores emocionais, cognitivos e históricos são os principais causadores e mantenedores do endividamento. Podemos compreender o endividamento recorrente como um ciclo cognitivo comportamental alimentado por crenças disfuncionais como, “Nunca vou ter dinheiro suficiente” ou “Gastar me faz sentir melhor”. Dessa forma, podemos observar comportamentos de esquiva ao evitar abrir faturas, atrasos voluntários nos pagamentos ou impulsividade ao fazer compras compensatórias e as consequências negativas são a culpa, a vergonha, as dívidas acumuladas e as cobranças, isto reforça padrões emocionais  de ansiedade, autodepreciação e desesperança (Oliveira et al., 2015; Richardson et al. 2013).

Esse ciclo pode ser abordado com intervenções psicoterapêuticas, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), na qual permite identificar os pensamentos automáticos associados ao dinheiro e as crenças centrais ligadas ao endividamento, permitindo compreender os motivos do endividamento e também tratar suas raízes emocionais e cognitivas. A seguir alguns exemplos:

Elaborada pelo autor baseada em LEKOVIĆ (2020), KLONTZ et al. (2011) e BECK (2021).

Essas reflexões sobre a ligação entre crenças financeiras disfuncionais, endividamento e sofrimento psíquico não se restringem a consumidores ou famílias. No contexto empresarial, padrões semelhantes podem estar presentes apenas disfarçados sob a roupagem de “estratégias de negócios” ou “necessidades do mercado” como veremos a seguir (Nobre et al., 2022).

Empreendedorismo, Insegurança e Sofrimento Psíquico

Muitas decisões aparentemente racionais, como viagens de “inspiração” custeadas pela empresa, gastos elevados para manter uma imagem de sucesso ou investimentos precipitados, podem, na verdade, refletir necessidades emocionais não reconhecidas como, busca de validação social, compensação de frustrações passadas ou tentativas inconscientes de corresponder a ideais irreais de sucesso. Assim como no endividamento pessoal, essas escolhas podem ser guiadas por crenças internalizadas desde a infância ou reforçadas por modelos culturais, impactando a saúde financeira do negócio e a saúde mental do empreendedor. Empresários e empreendedores enfrentam intensa pressão por resultados, jornadas exaustivas e risco financeiro constante, muitos internalizam crenças como "só depende de mim", "o fracasso financeiro é culpa minha", ou "não posso demonstrar fraqueza". Essas crenças, associadas à falta de proteção social, aumentam o risco de estresse crônico, ansiedade e burnout (Kleine et al., 2024; Nobre et al., 2022).

Empreendedores com maior autoeficácia, otimismo, esperança e resiliência, produzem um estado de acréscimo psicológico positivo como a confiança. A confiança é responsável pelo ânimo necessário durante o esforço para ser bem sucedido em tarefas desafiantes, manifestar perseverança em relação aos objetivos definidos, redirecionar os meios para atingir os fins e revelar capacidades para recuperar-se das adversidades. No entanto, muitos ainda vivenciam o dinheiro como extensão de sua identidade e como medida de valor pessoal, o que pode intensificar o sofrimento em momentos de crise. Assim, tanto no contexto pessoal quanto no empresarial, os atalhos mentais e as crenças disfuncionais podem comprometer decisões financeiras e gerar sofrimento psíquico. Reconhecer essas distorções não é apenas uma questão de gestão do dinheiro, mas um passo fundamental para preservar o equilíbrio emocional. É nesse ponto que as intervenções clínicas, especialmente as abordagens cognitivas, assumem papel central (Beck, 2021; Lima et al., 2020).

Implicações Clínicas e Intervenções Psicológicas

Do ponto de vista clínico, podemos tratar essas raízes emocionais e cognitivas com a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) que foca na relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Essa abordagem terapêutica é estruturada e baseada em evidências científicas, direcionada para a solução de problemas, ela foca no presente e utiliza técnicas práticas para promover mudanças cognitivas e comportamentais que melhorem a qualidade de vida do paciente. Dessa forma, pensamos em algo, sentimos uma emoção e nos comportamos de determinada maneira, não havendo uma ordem específica, podemos primeiro sentir e depois pensar ou um comportamento pode gerar um pensamento ou uma emoção. Sendo assim, a TCC possui a premissa de que a forma como percebemos e interpretamos os acontecimentos é o que realmente afeta nossas emoções e comportamentos, e não a situação que ocorreu. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, oferece ferramentas como: diário financeiro e identificação de gatilhos emocionais para o consumo, análise de pensamentos automáticos e distorções cognitivas sobre dinheiro, reestruturação de crenças centrais como as que foram apresentadas no texto e treinamento de habilidades de enfrentamento e autocontrole. O objetivo é promover autonomia, consciência e bem-estar financeiro e emocional. Este é um resumo muito básico da TCC, pois este artigo está mais focado na psicologia financeira e na relação do leitor com o dinheiro. Assim, compreender o impacto das crenças financeiras no sofrimento psíquico é uma das etapas para melhorar, após é preciso direcionar intervenções efetivas. Porém existem outros fatores que podem interferir nessa melhora como será demonstrado a seguir (Beck, 2021).

Limitações Da Pesquisa E Considerações Clínicas

Grande parte dos estudos de psicologia financeira está direcionado para o mercado de ações, então foi necessário uma grande pesquisa para adaptar, principalmente a heurística, para o consumidor individual e empresarial brasileiro. Ademais, apesar dos avanços cientificamente observados com a aplicação da TCC, é importante reconhecer que nem todos os pacientes respondem da mesma forma às intervenções. Fatores como resistência ou ambivalência  à mudança, rigidez cognitiva, baixa motivação, contexto familiar e principalmente o ambiente podem interferir no processo. Além disso, no contexto empresarial, ainda existe uma resistência à terapia. Um empresário que alcançou sucesso financeiro, mas agora enfrenta estagnação ou declínio, pode sustentar crenças como: “Consegui tudo sozinho”, “Não preciso de ajuda, cheguei até aqui com meu próprio esforço” ou “Vão me achar fraco se pedir apoio psicológico”. Embora essas ideias possam refletir experiências reais, tornam-se disfuncionais quando impedem o indivíduo de buscar ajuda necessária e geram prejuízos pessoais ou profissionais. Conquanto, trabalhar com crenças profundamente enraizadas, incentivadas pelo ambiente empresarial, pode demandar um tempo maior de intervenção, isso ocorre porque essas crenças são reforçadas todos os dias e repetidas por superiores ou pessoas que o indivíduo admira e se espelha, por isso, a desmistificação da terapia, a adaptação das estratégias ao perfil do paciente aliada à paciência para respeitar o ritmo do processo terapêutico, é fundamental para um tratamento eficaz.

Conclusão

A análise realizada demonstra que comportamentos financeiros disfuncionais decorrem de uma interação complexa entre vieses cognitivos, atalhos mentais e crenças profundamente enraizadas sobre o dinheiro. Esses fatores podem levar a decisões impulsivas ou mal planejadas, que podem impactar diretamente na saúde mental, gerando ansiedade, culpa, vergonha e sensação de descontrole. A integração entre Psicologia Financeira e Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) oferece opções para intervir nessas questões: identificar pensamentos automáticos, reformular crenças disfuncionais e adotar estratégias práticas de autocontrole e planejamento financeiro. Observa-se que tanto consumidores individuais quanto empreendedores podem se beneficiar dessas intervenções, ampliando autonomia, segurança emocional e capacidade de tomar decisões financeiras mais conscientes. Portanto, compreender os processos psicológicos que orientam o comportamento financeiro é fundamental tanto para evitar prejuízos econômicos, quanto para promover bem-estar emocional e resiliência diante de desafios financeiros. Estudos futuros podem investigar como diferentes contextos culturais, socioeconômicos e empresariais modulam esses vieses e crenças, aprimorando intervenções clínicas e educativas.


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Autor do Artigo

Henrique Becker

Psicólogo(a) cadastrado(a) no PsicoBrasil

Para quem dá conta de tudo, menos de desligar a própria cabeça. Trabalho com adultos que enfrentam ansiedade, excesso de pensamentos, estresse e dificuldades relacionadas ao trabal...

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