Quando o desejo vira problema: por que temos tanta dificuldade de falar sobre sexualidade?
Entre expectativas, vergonha, culpa e cobranças, muitas pessoas acabam vivendo a própria sexualidade mais preocupadas em corresponder do que em descobrir o que realmente desejam.
Falar sobre sexualidade parece, à primeira vista, algo simples. Afinal, somos constantemente expostos a discursos sobre sexo, relacionamentos, prazer e desejo. Há informações por todos os lados, conversas nas redes sociais, aplicativos de relacionamento e uma aparente liberdade para falar sobre o assunto.
Ainda assim, quando a sexualidade deixa o campo da teoria e passa a tocar a própria experiência, muitas pessoas encontram dificuldades para falar sobre aquilo que sentem.
O que eu realmente desejo?Por que não sinto vontade como antes?Por que tenho vergonha de dizer o que gosto?Por que me preocupo tanto com o desempenho?Por que continuo em relações que já não me fazem bem?Será que existe algo de errado comigo?
Talvez uma das maiores dificuldades esteja justamente no fato de que a sexualidade não é apenas sobre sexo.
Ela envolve nossa relação com o próprio corpo, com o prazer, com o outro, com a intimidade, com a autoestima e, principalmente, com o desejo.
Nem sempre aquilo que desejamos é aquilo que acreditamos que deveríamos desejar
Ao longo da vida, aprendemos muitas ideias sobre como deveríamos viver nossa sexualidade.
Devemos ter desejo.Devemos saber seduzir.Devemos ter experiências.Devemos gostar de determinadas práticas.Devemos conseguir satisfazer o parceiro.Devemos ter um determinado corpo.Devemos estar sempre disponíveis.
Essas expectativas podem transformar a sexualidade em uma espécie de prova que precisamos passar.
Em vez de perguntar “o que eu desejo?”, começamos a perguntar “será que estou fazendo isso certo?”.
E essa mudança parece pequena, mas pode transformar completamente a experiência.
Quando o sexo passa a ser vivido sob o olhar da avaliação, o prazer pode dar lugar à ansiedade. A pessoa deixa de estar presente na própria experiência e passa a observar a si mesma: como está se saindo, como está sendo percebida, se está agradando, se seu corpo está correspondendo às expectativas.
O encontro com o outro se transforma, então, em uma espécie de desempenho.
O desejo não funciona como uma obrigação
Existe uma expectativa de que o desejo deveria ser espontâneo, constante e facilmente compreensível. Mas a sexualidade humana é muito mais complexa.
O desejo pode mudar. Pode aparecer e desaparecer. Pode ser intenso em determinados momentos e quase inexistente em outros. Pode ser atravessado por conflitos, inseguranças, experiências anteriores, dificuldades no relacionamento e pela maneira como cada pessoa se relaciona consigo mesma.
Por isso, nem toda dificuldade sexual pode ser compreendida simplesmente como falta de informação ou como um problema que precisa ser imediatamente corrigido.
Às vezes, é necessário escutar aquilo que essa dificuldade está expressando.
Uma diminuição do desejo, por exemplo, pode estar relacionada a inúmeras questões. Assim como uma dificuldade de se entregar à intimidade pode envolver não apenas o sexo, mas também medo de rejeição, necessidade de controle, vergonha ou dificuldade de confiar no outro.
Isso não significa que toda questão sexual tenha uma causa psicológica. Questões médicas, hormonais, medicamentosas e outros fatores também podem interferir na sexualidade e precisam ser considerados.
Mas significa reconhecer que existe uma dimensão subjetiva da sexualidade que não pode ser reduzida ao funcionamento do corpo.
Quando a vergonha entra na vida sexual
Talvez a vergonha seja uma das emoções mais presentes quando falamos de sexualidade.
Vergonha do corpo.Vergonha de demonstrar desejo.Vergonha de dizer “não”.Vergonha de dizer “sim”.Vergonha de admitir que não gostou.Vergonha de revelar uma fantasia.Vergonha de não sentir aquilo que imaginava que deveria sentir.
E, muitas vezes, a vergonha produz silêncio.
A pessoa não pergunta, não conversa com o parceiro, não procura ajuda e passa a acreditar que é a única a experimentar determinada dificuldade.
Mas aquilo que não consegue ser colocado em palavras frequentemente continua aparecendo de outras formas.
Pode aparecer na ansiedade, na evitação, na cobrança, nas brigas, na dificuldade de estabelecer limites ou na sensação persistente de que existe alguma coisa “errada” consigo.
Falar sobre sexualidade, portanto, não significa necessariamente falar mais sobre sexo. Pode significar encontrar palavras para aquilo que, durante muito tempo, só conseguiu ser vivido em silêncio.
A sexualidade também acontece dentro dos relacionamentos
Quando duas pessoas se encontram, não se encontram apenas dois corpos.
Encontram-se duas histórias, duas formas de desejar, duas experiências de intimidade e duas maneiras diferentes de lidar com proximidade, rejeição, vulnerabilidade e confiança.
Por isso, questões sexuais muitas vezes estão profundamente relacionadas à dinâmica do relacionamento.
Uma pessoa pode desejar mais enquanto a outra deseja menos. Uma pode buscar proximidade justamente quando a outra precisa de espaço. Uma pode interpretar a falta de iniciativa como rejeição, enquanto a outra vive a cobrança como pressão.
O problema, então, deixa de ser apenas “quanto sexo estamos fazendo?” e passa a envolver perguntas mais difíceis:
Como cada um de nós se sente desejado?
O que significa, para cada um, ser desejado pelo outro?
Conseguimos falar sobre nossas necessidades sem transformar a conversa em cobrança?
Existe espaço para dizer não sem que isso seja vivido como rejeição?
Essas perguntas podem revelar muito mais sobre a vida sexual de um casal do que qualquer regra sobre frequência ou desempenho.
Talvez seja necessário reaprender a escutar o próprio desejo
Não existe uma forma universalmente correta de viver a sexualidade.
Existe, porém, uma diferença importante entre viver a própria sexualidade a partir do que faz sentido para si e viver tentando corresponder continuamente às expectativas externas.
Conhecer o próprio desejo não significa realizar tudo aquilo que desejamos. Significa poder reconhecer o que sentimos, inclusive aquilo que nos causa conflito, e construir uma relação mais consciente com isso.
Às vezes, o caminho começa justamente por uma pergunta simples:
“O que eu quero, quando não estou tentando ser aquilo que esperam de mim?”
Essa pergunta pode não produzir uma resposta imediata. E talvez esse seja justamente o ponto.
A sexualidade não precisa ser tratada como uma prova que precisamos resolver rapidamente. Ela também pode ser compreendida como um espaço de descoberta sobre nós mesmos e sobre a maneira como nos relacionamos com o outro.
Quando conseguimos falar sobre ela sem precisar imediatamente julgar, corrigir ou justificar aquilo que sentimos, abre-se a possibilidade de uma relação diferente com o próprio desejo.
E, em alguns momentos, descobrir o que desejamos começa simplesmente por conseguir falar sobre aquilo que, até então, não conseguíamos dizer.