Saúde mental de profissionais de saúde: por que eles também precisam de terapia
Saúde mental de profissionais de saúde: por que eles também precisam de terapia
Existe uma expectativa silenciosa que recai sobre quem trabalha com o cuidado: a de que essas pessoas estejam sempre bem. Como se conhecer o sofrimento humano fosse o mesmo que estar imune a ele.
Psicólogos, médicos, enfermeiros, terapeutas — profissionais que passam o dia escutando, acolhendo e sustentando a dor dos outros — frequentemente chegam ao fim do expediente sem um lugar para depositar o que carregaram. E, quando o assunto é buscar ajuda para si, muitos hesitam.
Se você trabalha com cuidado, este texto é para você.
O profissional como instrumento de trabalho
Na psicanálise, há uma compreensão que vale para toda profissão de cuidado: o instrumento de trabalho não é um aparelho externo, é o próprio profissional.
Quando Freud (1912) escreveu suas Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, ele estava descrevendo, na prática, como alguém pode se colocar à disposição da escuta de outra pessoa. E uma de suas recomendações centrais foi a da atenção flutuante — uma escuta que não se fixa em nada específico para poder captar tudo o que aparece.
Sustentar esse tipo de escuta exige disponibilidade psíquica. Exige estar minimamente inteiro. Um instrumento desafinado não produz o mesmo som — e um profissional exausto, adoecido ou atravessado pelas próprias questões não sustenta a mesma qualidade de presença.
Cuidar da própria saúde mental, nesse sentido, não é um luxo nem um desvio do trabalho. É condição para que o trabalho aconteça.
Os pontos cegos: quando o que é meu se mistura com o que é do outro
Freud (1912) foi categórico ao afirmar que as falhas na escuta do analista ocorrem por perturbação pessoal dele. Foi Stekel quem nomeou esses lugares de "pontos cegos" — zonas em que os conflitos não elaborados do profissional interferem diretamente na sua capacidade de compreender o que o paciente traz.
Isso significa algo importante: sem um trabalho sobre si, o profissional corre o risco de escutar as próprias questões na fala do outro. De confundir a angústia do paciente com a sua. De reagir a partir do que o afeta pessoalmente, e não do que está sendo demandado ali.
É justamente por isso que Freud recomendava que os pontos cegos fossem objeto da análise pessoal do profissional. E, mais tarde, em um texto de 1937, ele foi além: sugeriu que o próprio analista retornasse à análise periodicamente — uma espécie de manutenção, um reconhecimento de que ninguém fica imune ao próprio inconsciente só porque estudou sobre ele.
Como observa Mabilde (2012), ao revisitar essas recomendações cem anos depois, a psicanálise contemporânea foi ainda mais longe: hoje se reconhece que a identidade do analista inclui uma pessoa com sentimentos, e que o pessoal e o profissional estão inevitavelmente implicados um no outro.
Não existe profissional neutro. Existe profissional que conhece seus atravessamentos — e profissional que não conhece.
Lidar com o outro é uma responsabilidade enorme
Há um peso real em ocupar esse lugar.
Quem trabalha com cuidado lida diariamente com histórias de dor, com situações-limite, com a vulnerabilidade de pessoas que confiam algo íntimo. Essa responsabilidade tem uma dimensão ética que não pode ser ignorada: o que fazemos com o que nos é confiado importa.
E a ética profissional não se sustenta apenas em regras e códigos. Ela se sustenta, também, na capacidade de perceber quando algo em nós está interferindo no cuidado que oferecemos. Perceber quando o cansaço virou irritação. Quando a identificação com uma história virou envolvimento excessivo. Quando o esgotamento começou a comprometer a atenção.
Essa percepção não surge sozinha. Ela se constrói em um espaço onde o profissional também possa falar — e ser escutado.
Quem cuida de quem cuida?
Aqui chegamos à pergunta que dá nome ao problema.
Se somos tão atentos aos sinais de sofrimento nos outros, por que demoramos tanto a reconhecê-los em nós? Se recomendamos descanso, limites e acompanhamento aos nossos pacientes, por que não seguimos as mesmas orientações? Se sabemos da importância de um espaço de escuta, por que tantos de nós passam anos sem ter um?
Há várias respostas possíveis, e nenhuma é simples.
Uma delas tem a ver com identidade. Ocupar o lugar de quem cuida pode se tornar tão central que admitir a própria necessidade de cuidado parece uma contradição — quase uma falha profissional.
Outra tem a ver com a própria estrutura do trabalho. Jornadas extensas, alta demanda emocional, contato constante com o sofrimento — tudo isso consome recursos psíquicos que precisam ser repostos de alguma forma.
E há ainda algo mais sutil: a dificuldade de se colocar na posição de quem precisa. De se implicar na própria queixa, como diria a psicanálise. De sair do lugar de quem sabe e entrar no lugar de quem busca.
Dar mais ao outro do que a si mesmo
Existe um padrão comum entre profissionais de cuidado: a facilidade com que oferecem aos outros exatamente aquilo que negam a si.
Paciência com o processo alheio, mas cobrança com o próprio. Acolhimento para a dor do outro, mas dureza com a própria. Recomendação de pausas e limites para quem atendem, mas jornadas sem intervalo para si.
Esse desequilíbrio não é generosidade — é, muitas vezes, uma forma de evitar o próprio olhar. Cuidar do outro pode se tornar uma maneira socialmente valorizada de não cuidar de si.
A psicoterapia oferece um espaço onde esse padrão pode ser reconhecido e questionado. Não para transformar o profissional em alguém "melhor", mas para que ele possa se escutar com o mesmo rigor e a mesma delicadeza com que escuta os outros.
Cuidar de si é parte do ofício
Buscar terapia sendo profissional de saúde não é admitir fracasso. É reconhecer que você também é atravessado pela sua história, pelos seus lutos, pelas suas questões — e que isso não te desqualifica, apenas te torna humano.
O profissional que se cuida trabalha melhor. Adoece menos. Tem mais clareza sobre o que é seu e o que é do outro. Consegue sustentar sua presença sem se esgotar.
E, principalmente, deixa de viver a contradição de defender para os outros um cuidado que não se permite.
Se você trabalha com cuidado e sente que há tempo não tem para onde levar o que escuta, talvez seja hora de construir esse espaço. Não como obrigação profissional, mas como um direito que você tem — o mesmo que você reconhece, todos os dias, em quem te procura.
Referências
FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912). In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1972.
FREUD, S. Análise terminável e interminável (1937). In: ______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 23. Rio de Janeiro: Imago, 1972.
MABILDE, L. C. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, cem anos depois. Revista de Psicanálise da SPPA, v. 19, n. 1, p. 227-240, abr. 2012.
Marcela Souza Dantas Psicóloga Clínica — CRP 02/34767