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Solidão LGBTQIAPN+: por que podemos nos sentir sozinhos mesmo estando rodeados de pessoas?

28/10/2026

Estar rodeado de pessoas nem sempre significa se sentir acompanhado. Às vezes, temos amigos com quem conversar, colegas com quem compartilhar a rotina e até familiares por perto, mas ainda sentimos que falta alguma coisa. Como se uma parte importante de quem somos não encontrasse espaço para existir por inteiro nas nossas relações.

Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, essa experiência pode assumir contornos particulares. Não necessariamente pela ausência de pessoas ao redor, mas pela dificuldade de encontrar relações nas quais seja possível falar sobre a própria vida, demonstrar afeto, compartilhar inseguranças e existir sem o receio constante de ser julgado ou incompreendido.

Mas por que isso acontece? E como podemos compreender essa solidão que nem sempre é percebida por quem está de fora?

Estar só é diferente de se sentir só

A solidão não depende apenas da quantidade de pessoas com quem convivemos. Ela também está relacionada à qualidade dos nossos vínculos e à maneira como percebemos nossas conexões com os outros.

Uma pessoa pode passar bastante tempo sozinha e sentir-se bem com isso, encontrando tranquilidade na própria companhia. Outra pode estar cercada de amigos, participar de encontros e manter uma vida social ativa, mas sentir que não tem com quem conversar verdadeiramente sobre aquilo que a preocupa.

A diferença está, muitas vezes, na possibilidade de estabelecer conexões nas quais exista espaço para ser compreendido.

Quando sentimos que precisamos esconder determinadas experiências, evitar certos assuntos ou modificar nosso comportamento para sermos aceitos, podemos até participar das relações, mas sem experimentar a sensação de pertencimento que desejamos.

É como estar presente fisicamente, mas sentir que uma parte de nós precisa permanecer do lado de fora.

O cansaço de precisar avaliar onde podemos ser nós mesmos

Para algumas pessoas LGBTQIAPN+, construir relações envolve uma preocupação que nem sempre é percebida por quem não compartilha dessas experiências: avaliar se determinado ambiente é seguro para demonstrar quem se é.

Posso falar sobre meu relacionamento? É melhor não mencionar que estou conhecendo alguém? Como essa pessoa reagiria se soubesse da minha orientação sexual? Será que posso demonstrar afeto em público sem me tornar alvo de comentários?

Essas perguntas podem surgir em situações cotidianas, muitas vezes de maneira tão habitual que a própria pessoa deixa de perceber o quanto esse estado de alerta consome sua energia emocional.

Em alguns contextos, esconder uma parte da própria identidade pode ser uma forma de proteção diante de riscos reais de rejeição, violência ou discriminação. Portanto, não se trata simplesmente de incentivar alguém a se expor mais, mas de reconhecer que nem todos os ambientes oferecem as mesmas condições de segurança.

O desgaste pode aparecer justamente nessa necessidade de calcular o que dizer, o que demonstrar e até que ponto é possível relaxar na presença dos outros.

Quando esse cuidado se torna frequente, estabelecer intimidade pode parecer mais difícil. Afinal, para nos sentirmos próximos de alguém, precisamos encontrar algum espaço para compartilhar aquilo que realmente importa para nós.

Quando o medo da rejeição acompanha os relacionamentos

Nem sempre as experiências de rejeição precisam acontecer repetidamente no presente para influenciarem a maneira como alguém se relaciona. Vivências anteriores de preconceito, afastamento familiar, bullying ou invalidação podem contribuir para que novas relações sejam vividas com receio.

Uma pessoa que já precisou esconder quem é para preservar um vínculo pode passar a antecipar a possibilidade de rejeição em outras relações. Mesmo quando encontra alguém disposto a acolhê-la, talvez demore a confiar, compartilhar aspectos íntimos da própria vida ou acreditar que será aceita se mostrar suas vulnerabilidades.

Isso não significa que todas as pessoas LGBTQIAPN+ desenvolvam essas dificuldades, nem que toda insegurança afetiva tenha origem na orientação sexual ou na identidade de gênero. Cada história é singular e precisa ser compreendida em seu próprio contexto.

Ainda assim, reconhecer o impacto que experiências de discriminação podem ter sobre a confiança e o sentimento de pertencimento ajuda a compreender por que algumas aproximações podem exigir tempo e cuidado.

Às vezes, o desejo de criar vínculos está presente, mas vem acompanhado do medo de que a proximidade termine em rejeição.

A dificuldade de encontrar pessoas com quem compartilhar a própria experiência

Outro aspecto da solidão pode surgir quando sentimos que as pessoas ao nosso redor não compreendem determinadas partes da nossa história.

Talvez você queira conversar sobre a dificuldade de se assumir para a família, sobre uma relação que ainda não pode apresentar publicamente ou sobre a insegurança de frequentar determinados espaços. Mas, antes mesmo de começar a falar, imagina que precisará explicar conceitos, corrigir preconceitos ou justificar sentimentos que gostaria apenas de compartilhar.

Com o tempo, pode parecer mais fácil não tocar no assunto.

A conversa continua, a convivência acontece, mas determinadas experiências permanecem guardadas. E aquilo que não conseguimos compartilhar pode acabar ampliando a sensação de distância emocional.

É importante lembrar que ninguém precisa compreender absolutamente tudo o que vivemos para construir uma relação significativa conosco. Pessoas com histórias diferentes podem desenvolver vínculos profundos, desde que exista disposição para escutar, respeitar e reconhecer aquilo que não conhecem.

O problema não está em precisar explicar uma experiência nova para alguém. Está em sentir que nossa dignidade, nossa identidade ou o direito de viver determinadas relações precisam ser colocados em discussão para que possamos ser aceitos.

Família escolhida e a importância de encontrar pertencimento

Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, amizades e outros vínculos construídos ao longo da vida podem adquirir um significado especial. Em alguns casos, essas relações se tornam uma espécie de família escolhida: pessoas com quem é possível compartilhar experiências, celebrar conquistas e atravessar momentos difíceis.

Esses vínculos não precisam substituir a família de origem, nem seguir um modelo específico para serem importantes. Podem ser amizades antigas, parceiros, grupos comunitários ou pessoas que, pouco a pouco, demonstraram que é possível construir relações baseadas no respeito e na reciprocidade.

Encontrar espaços de convivência nos quais a diversidade seja acolhida também pode favorecer o sentimento de pertencimento. Neles, talvez não seja necessário explicar cada detalhe da própria experiência para que ela seja reconhecida.

Isso não significa que todas as relações dentro da comunidade LGBTQIAPN+ sejam seguras ou que a identificação com um grupo elimine a solidão. Conflitos, desencontros e dificuldades de relacionamento também existem nesses espaços.

O que importa é a possibilidade de construir vínculos nos quais haja respeito às diferenças, liberdade para estabelecer limites e abertura para que cada pessoa seja conhecida para além de qualquer identidade coletiva.

Às vezes, o primeiro passo não é encontrar muitas pessoas, mas perceber com quem já é possível estabelecer uma conexão mais verdadeira.

Quando a solidão também aparece na relação consigo mesmo

Existe ainda uma dimensão mais silenciosa dessa experiência: a maneira como nos relacionamos conosco quando passamos muito tempo tentando corresponder às expectativas externas.

Se, durante boa parte da vida, aprendemos a esconder sentimentos, controlar gestos ou questionar se determinadas partes de nós são aceitáveis, podemos acabar desenvolvendo uma relação marcada pela vigilância e pela autocobrança.

Mesmo em momentos de privacidade, pode ser difícil relaxar e reconhecer os próprios desejos sem julgá-los. A pergunta deixa de ser apenas “Será que as pessoas vão me aceitar?” e passa a incluir “Será que posso aceitar quem sou?”.

Esse processo não acontece da mesma forma para todas as pessoas, e a construção de uma relação mais acolhedora consigo não depende exclusivamente do esforço individual. As condições sociais, as experiências vividas e a disponibilidade de apoio também importam.

Ainda assim, encontrar espaços nos quais seja possível reconhecer sentimentos, compreender necessidades e questionar exigências que já não fazem sentido pode ajudar a desenvolver uma relação menos hostil consigo mesmo.

Não se trata de aprender a não precisar de ninguém. Somos seres relacionais, e a necessidade de conexão faz parte da experiência humana. Trata-se de construir vínculos sem precisar abandonar a própria identidade para preservá-los.

Como a psicoterapia pode ajudar a compreender essa experiência?

A psicoterapia pode oferecer um espaço para explorar a solidão sem tratá-la como uma falha pessoal ou como algo que deveria ser resolvido simplesmente saindo mais, fazendo amigos ou aprendendo a gostar da própria companhia.

Em um acompanhamento psicológico, é possível compreender em quais situações a solidão aparece, como ela se relaciona com experiências anteriores e o que acontece quando tentamos nos aproximar de outras pessoas.

Também pode ser um espaço para reconhecer necessidades afetivas, perceber limites, elaborar experiências de rejeição e investigar quais relações favorecem uma sensação mais consistente de segurança e pertencimento.

Na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), desenvolvida por Carl Rogers, a qualidade do encontro e a compreensão da experiência subjetiva ocupam um lugar central. Isso significa considerar a maneira singular como cada pessoa percebe e vive suas relações, sem partir de respostas prontas sobre o que ela deveria sentir ou fazer.

Para uma pessoa LGBTQIAPN+, esse cuidado também envolve reconhecer os efeitos possíveis da LGBTfobia e das pressões sociais, sem reduzir toda a sua experiência a essas circunstâncias.

A orientação sexual e a identidade de gênero podem ser partes importantes da história de alguém, mas não explicam tudo o que essa pessoa sente, deseja ou enfrenta. Há espaço para falar de relacionamentos, família, trabalho, ansiedade, luto, projetos de vida e qualquer outra questão que faça sentido naquele momento.

A terapia não elimina automaticamente a solidão, nem substitui a construção de vínculos fora do consultório. Mas pode ajudar a pessoa a compreender o que está vivendo e a reconhecer possibilidades de conexão que respeitem sua história e suas necessidades.

Para refletir

Talvez você conheça a sensação de estar em um grupo, participar de uma conversa e, ainda assim, sentir que ninguém ali conhece verdadeiramente você. Talvez tenha aprendido a desconversar, esconder partes da sua vida ou evitar determinados assuntos para não correr o risco de perder o afeto de alguém.

Se isso acontece com você, vale lembrar que sentir solidão não significa que exista algo errado com quem você é.

Pode ser importante olhar para as relações que fazem parte da sua vida e se perguntar: em quais delas consigo ser eu mesmo sem sentir que preciso me defender o tempo todo?

E, se ainda não encontrou uma resposta, outra pergunta pode ser um começo: que tipo de relação gostaria de construir, e quais pequenos movimentos poderiam aproximá-lo dessa possibilidade?

Você não precisa responder a tudo agora. Construir vínculos seguros pode levar tempo, especialmente quando algumas experiências ensinaram que se aproximar também envolve riscos.

Mas sua história não precisa ser definida apenas pelas relações em que você não encontrou acolhimento. Novas conexões podem ser construídas, e você merece ter espaço para viver relações nas quais seja possível compartilhar não apenas suas dificuldades, mas também suas alegrias, seus desejos e tudo aquilo que faz de você uma pessoa inteira.

Você não precisa se sentir compreendido por todo mundo. Mas merece encontrar relações nas quais não precise esconder quem é para pertencer.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui o acompanhamento psicológico individualizado.

Referências para aprofundamento

  • MEYER, I. H. Prejudice, social stress, and mental health in lesbian, gay, and bisexual populations: conceptual issues and research evidence. Psychological Bulletin, 2003.

  • RUSSELL, D. W. UCLA Loneliness Scale (Version 3): Reliability, validity, and factor structure. Journal of Personality Assessment, 1996.

  • RYAN, C. et al. Family acceptance in adolescence and the health of LGBT young adults. Journal of Child and Adolescent Psychiatric Nursing, 2010.

Autor do Artigo

Fernando Souza

Psicólogo(a) cadastrado(a) no PsicoBrasil

Se você sente que carrega muita coisa e gostaria de um espaço onde não precise se justificar, você é bem-vindo aqui. Sou Fernando, psicólogo clínico (CRP 06/237424), graduado em P...

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