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Solidão: um problema de saúde pública silencioso

15/09/2026
Solidão: um problema de saúde pública silencioso

Sentir-se sozinho nem sempre significa estar fisicamente sozinho. É possível viver com outras pessoas, frequentar o trabalho, conversar diariamente pelas redes sociais e, ainda assim, experimentar uma profunda sensação de desconexão.

A solidão é uma experiência humana que pode aparecer em diferentes momentos da vida. Mudanças de cidade, perdas, separações, aposentadoria, dificuldades nos relacionamentos, sobrecarga, experiências de rejeição ou períodos de grandes transformações podem modificar a maneira como uma pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros.

Nos últimos anos, porém, a solidão deixou de ser vista apenas como uma questão individual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a tratar a conexão social como uma questão de saúde pública. Em relatório publicado em 2025, a Comissão da OMS sobre Conexão Social estimou que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo vivencia a solidão. O relatório também destaca associações entre solidão, isolamento social e impactos importantes na saúde física e mental.

Diante desse cenário, compreender como lidar com a solidão não significa simplesmente aprender a “ficar bem sozinho”. Significa compreender nossas necessidades de conexão, reconhecer quando estamos sofrendo e buscar formas possíveis e seguras de construir ou fortalecer vínculos.

Solidão não é o mesmo que estar sozinho

Estar sozinho e sentir-se sozinho são experiências diferentes.

Uma pessoa pode escolher passar algumas horas sozinha para descansar, organizar os pensamentos ou simplesmente aproveitar sua própria companhia. Nesse caso, a solitude pode ser uma experiência desejada.

A solidão, por outro lado, está relacionada à percepção de que existe uma distância entre as conexões que temos e aquelas que gostaríamos ou necessitamos ter. A própria OMS diferencia solidão de isolamento social: enquanto o isolamento pode ser entendido como uma condição objetiva de ter poucas relações ou interações, a solidão é uma experiência subjetiva de desconexão.

Por isso, quantidade de pessoas ao redor não determina necessariamente a qualidade da conexão.

É possível ter muitos contatos e ainda sentir falta de alguém com quem conversar de maneira verdadeira.

Também é possível gostar de momentos de solitude e, ao mesmo tempo, valorizar profundamente os relacionamentos.

Compreender essa diferença ajuda a evitar uma ideia comum: a de que toda pessoa que sente solidão simplesmente precisa “aprender a gostar da própria companhia”.

Em alguns casos, o que existe não é falta de capacidade para estar sozinho, mas uma necessidade legítima de vínculo, pertencimento, escuta e troca.

Por que a solidão merece atenção?

A solidão pode afetar diferentes áreas da vida.

Quando uma pessoa permanece por muito tempo desconectada de relações significativas, podem surgir sentimentos de tristeza, vazio, insegurança, rejeição ou falta de pertencimento. Também pode haver mudanças na disposição para participar de atividades, dificuldade para pedir ajuda ou tendência a se afastar ainda mais.

A evidência científica acumulada nas últimas décadas também relaciona isolamento social e solidão a diferentes desfechos de saúde.

A OMS afirma que a solidão e o isolamento social estão associados a impactos na saúde mental e física e na qualidade de vida. O relatório global de 2025 destaca associações com depressão e ansiedade, além de problemas cardiovasculares e outros impactos à saúde.

A organização estima ainda que a solidão esteja associada a centenas de milhares de mortes anualmente, embora essas estimativas sejam baseadas em dados populacionais e não permitam afirmar que a solidão, isoladamente, seja a causa direta de cada morte.

Por isso, falar sobre solidão não significa transformar uma experiência humana em diagnóstico.

Significa reconhecer que a conexão social também faz parte da saúde.

Em maio de 2025, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou uma resolução reconhecendo a conexão social como prioridade de saúde pública e incentivando estratégias baseadas em evidências para promover conexões positivas e reduzir o isolamento e a solidão.

Como lidar com a solidão?

Não existe uma única solução para a solidão. As causas e necessidades variam de pessoa para pessoa.

Ainda assim, algumas atitudes podem ajudar a construir caminhos de maior conexão.

1. Reconheça o que você está sentindo

O primeiro passo pode ser dar nome à experiência.

Em vez de pensar apenas “estou mal”, tente observar:

“Estou me sentindo sozinho?”

“Sinto falta de companhia ou de uma conexão mais profunda?”

“Existe alguém com quem eu gostaria de conversar?”

“Em quais momentos essa sensação aparece com mais intensidade?”

Perceber os momentos em que a solidão se manifesta pode ajudar a identificar necessidades.

Talvez a pessoa esteja precisando de companhia. Talvez esteja sentindo falta de vínculos mais significativos. Talvez exista uma dificuldade específica em iniciar ou manter relacionamentos.

Não é necessário encontrar todas as respostas imediatamente.

O importante é começar a observar.

2. Procure pequenas oportunidades de conexão

Quando alguém está se sentindo muito sozinho, pode parecer difícil imaginar uma grande mudança.

Por isso, pequenos passos podem ser mais realistas.

Enviar uma mensagem para alguém de confiança.

Fazer uma ligação.

Aceitar um convite.

Participar de uma atividade comunitária.

Conversar com um vizinho.

Retomar um contato antigo que faça sentido.

Participar de um grupo relacionado a um interesse pessoal.

Essas atitudes não garantem que a solidão desaparecerá, mas podem ampliar as oportunidades de interação.

A OMS destaca justamente a existência de estratégias em diferentes níveis, desde iniciativas comunitárias até ações individuais e relacionais. Entre elas estão atividades comunitárias, voluntariado, fortalecimento de redes e intervenções psicológicas.

3. Invista na qualidade dos vínculos

Ter muitas pessoas conhecidas não significa necessariamente sentir-se conectado.

Às vezes, uma conversa sincera com uma pessoa de confiança pode proporcionar mais sensação de pertencimento do que muitas interações superficiais.

Por isso, pode ser interessante perguntar:

“Com quem eu consigo ser eu mesmo?”

“Quem posso procurar quando preciso conversar?”

“Quais relações me fazem sentir respeitado e acolhido?”

Construir vínculos significativos geralmente exige tempo, disponibilidade e reciprocidade.

Também envolve aceitar que nem toda relação precisa se tornar íntima.

Podemos ter diferentes níveis de conexão: familiares, amigos, colegas, vizinhos, grupos comunitários e pessoas que compartilham interesses semelhantes.

Cada vínculo pode ocupar um lugar diferente na nossa vida.

4. Observe o papel das redes sociais

A tecnologia possibilitou novas formas de comunicação e pode ser uma importante ferramenta de conexão.

Ao mesmo tempo, estar constantemente conectado virtualmente não significa necessariamente sentir-se acompanhado.

A OMS reconhece que as transformações tecnológicas estão modificando a maneira como as pessoas se relacionam e que seus efeitos sobre a conexão social e a saúde mental precisam ser melhor compreendidos.

Uma pergunta útil pode ser:

“Depois de usar determinada rede social, eu me sinto mais conectado ou mais distante?”

Não se trata de considerar as redes sociais boas ou ruins de maneira absoluta.

O importante é observar como determinadas formas de uso influenciam sua experiência.

Em alguns momentos, uma conversa por mensagem pode ser exatamente o que alguém precisa. Em outros, pode ser importante trocar a tela por uma conversa presencial, uma caminhada ou uma atividade compartilhada.

5. Procure espaços de convivência

A conexão não acontece somente dentro de casa.

Atividades culturais, esportivas, religiosas, educacionais, profissionais ou comunitárias podem criar oportunidades para conhecer pessoas e desenvolver vínculos.

Participar de um grupo também pode oferecer algo importante: a sensação de pertencimento.

Isso não significa obrigar-se a frequentar ambientes que não combinam com você.

O objetivo é encontrar espaços nos quais exista alguma possibilidade de identificação, respeito e troca.

A própria OMS destaca a importância da chamada “infraestrutura social”, incluindo locais e serviços comunitários que favorecem encontros e relações entre as pessoas.

Quando a solidão começa a interferir na vida?

Sentir solidão ocasionalmente faz parte da experiência humana.

Porém, quando essa sensação se torna frequente, intensa ou persistente e começa a interferir no sono, no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos, no autocuidado ou na vontade de participar da vida cotidiana, pode ser importante buscar ajuda profissional.

A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender a experiência de solidão, investigar fatores que contribuem para ela e desenvolver estratégias compatíveis com a realidade de cada pessoa.

A OMS também reconhece intervenções psicológicas, incluindo abordagens voltadas a habilidades sociais e terapias como a terapia cognitivo-comportamental, entre as possibilidades de intervenção relacionadas à conexão social.

Isso não significa que a terapia seja necessária para todas as pessoas que sentem solidão.

Cada situação precisa ser compreendida individualmente.

Também é importante lembrar que a solidão não deve ser tratada apenas como responsabilidade da pessoa que sofre.

Se fatores como pobreza, discriminação, deficiência, migração, falta de espaços comunitários, dificuldades de mobilidade ou ausência de serviços contribuem para o isolamento, são necessárias respostas sociais e comunitárias também. A OMS destaca justamente que as causas da desconexão são múltiplas e envolvem fatores individuais, relacionais, comunitários e estruturais.

Pedir ajuda também é uma forma de conexão

Quando estamos sozinhos, pode surgir a sensação de que precisamos resolver tudo por conta própria.

Mas pedir ajuda pode ser um passo importante.

Isso pode significar dizer para alguém:

“Tenho me sentido sozinho ultimamente. Você pode conversar comigo?”

Ou:

“Estou passando por um período difícil e gostaria de ter alguém por perto.”

Nem sempre sabemos como os outros irão responder. Ainda assim, permitir-se comunicar uma necessidade pode abrir uma possibilidade de aproximação.

Também é importante lembrar que apoio não precisa vir de uma única pessoa.

Uma rede pode ser construída aos poucos, com diferentes vínculos e espaços de convivência.

Conclusão: conexão também é cuidado

A solidão pode ser silenciosa. Nem sempre quem está sofrendo demonstra aquilo que sente.

Por isso, olhar para a própria experiência e também para as pessoas ao nosso redor pode fazer diferença.

Como lidar com a solidão? Talvez o primeiro passo seja reconhecer que precisar de conexão não é sinal de fraqueza. Somos seres relacionais, e vínculos significativos fazem parte do nosso bem-estar.

Isso não significa estar cercado de pessoas o tempo todo.

Significa ter espaços em que seja possível conversar, ser ouvido, compartilhar experiências, oferecer apoio e sentir que existe algum lugar de pertencimento.

A solidão também é uma questão coletiva. Famílias, comunidades, escolas, ambientes de trabalho, serviços de saúde e políticas públicas podem contribuir para criar mais oportunidades de convivência e conexão.

A reflexão que fica é:

Quem são as pessoas com quem você pode compartilhar um momento verdadeiro? E existe alguém ao seu redor que talvez esteja precisando dessa conexão hoje?

Às vezes, uma mensagem, uma conversa, um convite para um café ou simplesmente perguntar “como você está?” pode ser o começo de uma aproximação.

Cuidar da saúde também passa por cuidar dos vínculos.

Perguntas frequentes

1. Sentir solidão significa estar sozinho?

Não necessariamente. A solidão é uma experiência subjetiva de desconexão. Uma pessoa pode estar rodeada de outras pessoas e ainda sentir que não possui vínculos significativos. Da mesma forma, alguém pode escolher ficar sozinho por determinado período sem experimentar solidão.

2. Como lidar com a solidão no dia a dia?

Pequenos passos podem ajudar, como entrar em contato com alguém de confiança, participar de atividades de convivência, retomar relações significativas, buscar grupos de interesse e observar como o uso das redes sociais influencia sua sensação de conexão. Não existe uma estratégia única para todas as pessoas.

3. Quando procurar ajuda psicológica por causa da solidão?

Quando a solidão se torna persistente ou intensa e começa a interferir na rotina, nos relacionamentos, no trabalho, nos estudos, no sono ou no autocuidado, pode ser importante conversar com um profissional qualificado para compreender melhor a situação.


Este artigo é informativo. Em caso de sofrimento intenso, procure profissional qualificado.

Referências

  • Organização Mundial da Saúde. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies – Report of the WHO Commission on Social Connection. 2025.

  • Organização Mundial da Saúde. Social Isolation and Loneliness.

  • Organização Mundial da Saúde. Social connection: Questions and answers. 2025.

  • Organização Mundial da Saúde. Social connection linked to improved health and reduced risk of early death. 2025.

  • World Health Assembly. Fostering social connection for global health: the essential role of social connection in combating loneliness, social isolation and inequities in health. 2025.

Silvana Souza Poiani- Psicóloga Clínica | TCC

Autor do Artigo

Silvana Poiani

Psicólogo(a) cadastrado(a) no PsicoBrasil

Olá! Sou Silvana Souza Poiani, psicóloga, e acredito que cada pessoa possui uma história única, que merece ser acolhida com respeito, empatia e sem julgamentos. Meu trabalho é vol...

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