Terapia online funciona? O que diz a ciência
Terapia online funciona? O que diz a ciência
Se alguém tivesse falado alguns anos atrás que seria possível fazer terapia deitado no sofá de casa, pelo celular ou pelo computador, talvez isso parecesse estranho. Hoje, porém, a terapia online já faz parte da rotina de muitas pessoas.
Mesmo assim, ainda existe uma dúvida bastante comum: terapia online funciona de verdade?
É melhor do que fazer terapia presencial? Dá para criar vínculo com o psicólogo mesmo estando cada um em um lugar? E será que falar sobre coisas tão pessoais por uma tela funciona da mesma maneira?
Essas são perguntas legítimas. Afinal, quando buscamos psicoterapia, não estamos falando apenas de uma conversa qualquer. Existe uma relação construída entre paciente e psicólogo, e é natural querer saber se essa relação pode acontecer também no ambiente virtual.
A boa notícia é que a ciência tem estudado bastante essa modalidade de atendimento. E, de modo geral, os resultados das pesquisas são bastante positivos.
Mas isso não significa que a terapia online seja igual para todo mundo ou que funcione da mesma maneira em qualquer situação.
Afinal, terapia online funciona?
De forma geral, sim. As pesquisas indicam que a psicoterapia realizada por meio da internet pode ser eficaz para diferentes demandas de saúde mental, especialmente quando existe um acompanhamento estruturado e uma boa relação entre paciente e profissional.
Uma revisão e meta-análise publicada por Andersson e colaboradores, que reuniu estudos sobre psicoterapia pela internet, encontrou resultados favoráveis para diferentes condições, mostrando que intervenções psicológicas realizadas online podem produzir resultados comparáveis aos tratamentos presenciais em determinadas situações.
Outras revisões também encontraram resultados semelhantes, especialmente para abordagens estruturadas, como a terapia cognitivo-comportamental.
Isso é importante porque durante muito tempo existiu a ideia de que “terapia de verdade” precisaria necessariamente acontecer no mesmo ambiente físico. Hoje, as evidências mostram que a distância, por si só, não impede que um processo terapêutico aconteça.
Mas existe uma diferença importante entre dizer que terapia online funciona e dizer que ela funciona para absolutamente qualquer pessoa, em qualquer momento ou para qualquer tipo de situação.
A psicoterapia continua sendo um processo individual. O formato precisa fazer sentido para quem está sendo atendido e para a demanda que está sendo trabalhada.
O vínculo com o psicólogo pode acontecer pela tela?
Essa é provavelmente uma das maiores preocupações de quem nunca fez terapia online.
“Mas como eu vou conseguir me abrir com alguém que está do outro lado de uma tela?”
O vínculo terapêutico não depende apenas de dividir o mesmo espaço físico. Ele é construído a partir da relação entre paciente e psicólogo, da escuta, da confiança, da sensação de segurança e da possibilidade de falar sobre aquilo que muitas vezes não é fácil colocar em palavras.
E pesquisas sobre psicoterapia online também apontam que a relação terapêutica pode ser construída nesse formato.
Isso não significa que a experiência será exatamente igual à presencial. Algumas pessoas sentem falta da presença física, da mudança de ambiente ou de simplesmente sair de casa para ir à terapia. Outras se sentem até mais confortáveis estando em seu próprio espaço.
Não existe uma resposta universal.
Para algumas pessoas, fazer terapia de casa pode diminuir a ansiedade de chegar a um consultório, facilitar a continuidade do tratamento ou tornar possível encaixar a sessão em uma rotina muito corrida.
Para outras, estar em casa pode trazer distrações, falta de privacidade ou a sensação de que é mais difícil separar aquele momento da rotina.
Por isso, uma pergunta talvez seja mais importante do que “online ou presencial?”:
“Em qual formato eu consigo me sentir mais disponível para esse processo?”
Quais são as vantagens da terapia online?
Uma das principais vantagens é a acessibilidade.
A terapia online pode facilitar o acompanhamento de pessoas que moram longe de determinados profissionais, que viajam com frequência, têm dificuldade de deslocamento ou vivem em locais com poucas opções de atendimento especializado.
Também pode facilitar a continuidade do processo. Uma mudança de cidade, uma viagem ou uma alteração na rotina não necessariamente significa precisar interromper o acompanhamento.
Existe ainda a questão do tempo.
Não precisar se deslocar até um consultório pode tornar a terapia mais viável para algumas pessoas. Em uma rotina em que muitas vezes parece que não existe espaço para mais nada, economizar o tempo de ida e volta pode fazer diferença.
Para algumas pessoas, o próprio ambiente de casa também pode trazer uma sensação maior de conforto.
E existe uma vantagem que às vezes passa despercebida: a possibilidade de encontrar um profissional com quem você realmente se identifique, mesmo que ele não esteja na mesma cidade.
Isso amplia as possibilidades de escolha.
Mas é importante lembrar que praticidade não deve ser o único critério. Uma terapia não se resume a conseguir marcar uma chamada de vídeo.
A qualidade do atendimento, a formação do profissional, a relação terapêutica e a adequação do tratamento à demanda continuam sendo fundamentais.
Existe algum caso em que a terapia presencial seja mais indicada?
Pode existir.
A escolha entre terapia online e presencial precisa considerar a situação de cada pessoa. Em alguns casos, o atendimento presencial pode ser mais adequado, especialmente quando existem circunstâncias que tornam difícil garantir segurança, privacidade ou condições mínimas para realizar a sessão online.
Também existem situações de sofrimento psíquico intenso ou crises que precisam de uma avaliação mais cuidadosa e, dependendo do caso, de uma rede de cuidado que vá além da psicoterapia.
Isso não significa que “terapia online não funciona para casos graves”. A questão é que o formato do atendimento não deve ser decidido isoladamente. É preciso avaliar as necessidades da pessoa, os riscos envolvidos e quais recursos de cuidado estão disponíveis.
Em situações de emergência ou risco imediato, por exemplo, a terapia online não deve ser vista como o único recurso. Nesses momentos, pode ser necessário buscar serviços de emergência, atendimento médico ou apoio presencial.
Por isso, antes de escolher o formato, vale conversar com o profissional sobre a sua demanda e entender se aquele tipo de atendimento é adequado para você.
E se eu não me adaptar à terapia online?
Isso também pode acontecer.
Às vezes, a pessoa começa a terapia online e percebe que não gosta daquele formato. Isso não significa necessariamente que a terapia não funciona — pode significar apenas que aquele formato não funciona tão bem para ela.
Talvez falte privacidade em casa. Talvez seja difícil se desconectar das tarefas ao redor. Talvez exista uma sensação de distância que incomode.
E tudo bem.
Da mesma forma, alguém pode experimentar a terapia presencial e perceber que o deslocamento, o ambiente ou a logística dificultam a continuidade.
Não existe um formato perfeito.
O mais importante é encontrar uma modalidade que permita construir um espaço de cuidado possível e sustentável.
Também vale lembrar que a terapia não precisa ser avaliada apenas pela pergunta “estou me sentindo bem depois da sessão?”.
Algumas sessões podem trazer alívio. Outras podem ser desconfortáveis, porque falar sobre determinados assuntos envolve entrar em contato com sentimentos e experiências difíceis.
O processo terapêutico é mais amplo do que a sensação de bem-estar imediatamente depois de cada encontro.
O que faz uma terapia online dar certo?
A tecnologia facilita o encontro, mas não é ela que faz a terapia funcionar.
Uma boa conexão de internet é importante, claro. Ter um ambiente minimamente privado também. Mas existem outros fatores que fazem muito mais diferença.
A relação entre paciente e psicólogo é um deles.
A possibilidade de se sentir ouvido, respeitado e seguro para falar sobre aquilo que realmente está acontecendo é fundamental. Também é importante que exista clareza sobre os objetivos do acompanhamento e que o profissional tenha recursos técnicos para trabalhar com aquela demanda.
Do lado do paciente, a continuidade também importa.
Não é necessário chegar à terapia sabendo exatamente o que dizer ou ter tudo organizado na cabeça. Mas estar disposto a participar do processo, experimentar novas formas de olhar para as situações e conversar sobre o que está funcionando ou não pode contribuir para o acompanhamento.
E existe algo que considero especialmente importante: poder dizer ao próprio psicólogo quando alguma coisa não está funcionando.
Se você sente que as sessões estão muito distantes, que não consegue se concentrar, que determinada abordagem não está fazendo sentido ou que gostaria de trabalhar outro assunto, isso também pode fazer parte da terapia.
A terapia não precisa ser um lugar onde você apenas responde às perguntas do profissional. É um processo construído em conjunto.
Então, terapia online funciona?
A ciência indica que sim, a terapia online pode ser eficaz e pode oferecer resultados semelhantes aos da terapia presencial em diferentes contextos e para diferentes demandas.
Mas talvez a pergunta não precise ser apenas “qual funciona melhor?”.
Pode ser:
“Qual formato me permite ter acesso a um acompanhamento psicológico de qualidade e realmente me envolver nesse processo?”
Para algumas pessoas, será o consultório. Para outras, será o ambiente de casa, com uma tela entre paciente e psicólogo.
O mais importante é não transformar a modalidade em uma regra.
Terapia online não é uma versão “menor” da terapia presencial. E terapia presencial também não é automaticamente melhor só porque existe proximidade física.
Existem diferentes formas de construir um espaço terapêutico, e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra.
Se você está pensando em começar terapia, talvez valha experimentar sem a expectativa de que tudo precise parecer perfeito desde a primeira sessão.
Você pode observar como se sente, se consegue falar, se existe confiança, se o profissional compreende a sua demanda e se aquele formato cabe na sua vida.
Porque, no fim, mais importante do que onde a terapia acontece é o que é possível construir dentro dela.
Perguntas frequentes
1. Terapia online tem o mesmo efeito que terapia presencial?
As pesquisas indicam que a terapia online pode apresentar resultados semelhantes aos da terapia presencial em diferentes situações, especialmente em intervenções psicológicas estruturadas. Porém, a eficácia depende de diversos fatores, incluindo a demanda, o método utilizado, a relação terapêutica e as características de cada pessoa.
2. Posso fazer terapia online pelo celular?
Sim. A sessão pode ser realizada por computador, tablet ou celular, desde que o dispositivo permita uma comunicação adequada. É importante ter uma conexão estável e, principalmente, um ambiente em que você tenha privacidade para conversar.
3. Como saber se a terapia online é adequada para mim?
Essa decisão pode ser conversada com o psicólogo. É importante considerar sua demanda, sua rotina, sua possibilidade de ter privacidade durante as sessões e a forma como você se sente nesse tipo de atendimento. Se perceber que o formato não está funcionando para você, isso também pode ser conversado durante o processo.
Este artigo é informativo. Em caso de sofrimento intenso, procure profissional qualificado.
Referências
Andersson, G., Cuijpers, P., Carlbring, P., Riper, H., & Hedman, E. (2014). Guided Internet-based vs. face-to-face cognitive behavior therapy for psychiatric and somatic disorders: A systematic review and meta-analysis. World Psychiatry, 13(3), 288–295. https://doi.org/10.1002/wps.20151
Carlbring, P., Andersson, G., Cuijpers, P., Riper, H., & Hedman-Lagerlöf, E. (2018). Internet-based vs. face-to-face cognitive behavior therapy for psychiatric and somatic disorders: An updated systematic review and meta-analysis. Cognitive Behaviour Therapy, 47(1), 1–18. https://doi.org/10.1080/16506073.2017.1401115