Terapia para pais de primeira viagem
TERAPIA PARA PAIS DE PRIMEIRA VIAGEM: QUANDO A CHEGADA DE UM FILHO TRANSFORMA A VIDA
A chegada de um primeiro filho pode ser um dos acontecimentos mais marcantes da vida. A rotina muda, o sono fica diferente, as responsabilidades aumentam e, de repente, decisões que antes pareciam simples passam a exigir mais tempo e atenção. Mesmo quando a gravidez foi desejada e a chegada do bebê muito esperada, nem tudo acontece como a pessoa imaginava.
É possível sentir alegria ao olhar para o filho e, ao mesmo tempo, sentir falta da vida de antes. Pode haver entusiasmo com a nova família e medo de não saber cuidar dela. Algumas pessoas se surpreendem com a intensidade dos sentimentos; outras percebem que estão tão ocupadas atendendo às necessidades do bebê que mal conseguem reconhecer as próprias.
Essas experiências não são iguais para todos. Cada pessoa chega à parentalidade com sua história, seus relacionamentos, suas expectativas e suas condições de vida. Compreender o que essa mudança representa pode ajudar a atravessá-la com mais consciência. A psicoterapia é uma possibilidade para quem deseja olhar com mais cuidado para o que está vivendo, sem precisar corresponder a uma imagem ideal de pai ou mãe.
1 QUEM SOU EU DEPOIS DA CHEGADA DE UM FILHO?Antes do nascimento, é comum imaginar como será a vida com o bebê. Talvez você tenha pensado nos passeios, nos momentos de carinho, nas descobertas e na família que estava começando. Mas também pode ter imaginado como conciliaria o cuidado com o trabalho, os relacionamentos e os planos pessoais.
Quando a criança chega, a realidade pode ser diferente da expectativa. O tempo fica mais limitado, o descanso nem sempre é suficiente e atividades antes corriqueiras precisam ser reorganizadas. Até momentos simples, como tomar um banho tranquilo ou encontrar amigos, podem exigir planejamento.
Em meio a tantas mudanças, uma pergunta pode aparecer: onde eu fico nessa nova vida?
Essa pergunta não significa que a pessoa esteja rejeitando o filho. Ela pode expressar a tentativa de compreender como continuar sendo quem era enquanto aprende a viver uma nova experiência. Ser pai ou mãe passa a fazer parte da identidade, mas não precisa apagar todas as outras dimensões da vida.
Também é possível sentir falta da liberdade anterior. Talvez você sinta saudade de sair sem planejar cada detalhe, de dormir uma noite inteira ou de ter mais tempo para si. Reconhecer essa saudade não diminui o amor pelo bebê. Duas experiências aparentemente contraditórias podem coexistir.
Não existe uma maneira única de se tornar pai ou mãe. Para algumas pessoas, essa mudança é vivida com entusiasmo; para outras, vem acompanhada de estranhamento, insegurança ou um período mais longo de adaptação. Em vez de se comparar com quem parece estar vivendo tudo com facilidade, pode ser mais útil perguntar: o que mudou na minha vida e como estou vivendo essas mudanças?
2 MEDO DE ERRAR E INSEGURANÇA: SERÁ QUE ESTOU PREPARADO?Cuidar de um bebê envolve aprender muitas coisas ao mesmo tempo. É preciso reconhecer sinais, lidar com o choro, acompanhar as necessidades da criança e tomar decisões mesmo quando ainda não se tem experiência. É natural que surjam dúvidas.
Talvez você se pergunte se está fazendo o suficiente, se deveria saber mais ou se conseguirá perceber quando o bebê precisar de alguma coisa. Pode sentir medo de errar ou de não corresponder ao que esperam de você.
Essas preocupações podem ficar ainda maiores quando outras pessoas oferecem opiniões sobre como cuidar da criança. Comentários que parecem simples, como “no meu tempo era diferente” ou “você precisa ter mais segurança”, podem aumentar a sensação de que existe uma maneira certa de fazer tudo.
As redes sociais também podem alimentar comparações. Ao ver famílias que parecem organizadas, tranquilas e felizes o tempo todo, é fácil esquecer que uma publicação mostra apenas uma parte da vida. Você conhece suas noites mal dormidas, suas dúvidas e suas dificuldades; sobre a rotina das outras pessoas, geralmente conhece muito menos.
Isso não significa que toda insegurança seja motivo de preocupação clínica. Há dúvidas que fazem parte de uma situação nova. Mas vale prestar atenção quando o medo começa a ocupar grande parte do dia, interfere no sono mesmo quando há oportunidade para descansar, prejudica os relacionamentos ou torna as tarefas cotidianas muito difíceis.
Se você sente que precisa demonstrar segurança o tempo todo, talvez seja importante encontrar um lugar onde possa falar também sobre suas dúvidas. Na psicoterapia, não é necessário apresentar uma versão organizada de si mesmo. Você pode falar sobre o que sente, inclusive quando ainda não consegue compreender exatamente por quê.
Tristeza intensa ou persistente, ansiedade que interfere na vida diária e sensação de desesperança merecem atenção profissional. Se surgirem pensamentos de machucar a si mesmo ou o bebê, procure ajuda imediata em um serviço de urgência ou com profissionais de saúde.
3 COMO FICAM OS RELACIONAMENTOS E A DIVISÃO DOS CUIDADOS?A chegada de um bebê pode mudar a maneira como as pessoas se relacionam. Quando existe um casal, o tempo a dois pode diminuir, as conversas passam a girar em torno das necessidades da criança e tarefas que antes não exigiam negociação precisam ser divididas.
Quem vai levantar durante a noite? Como organizar o trabalho e os cuidados? Quem consegue descansar? O que acontece quando uma pessoa sente que está fazendo mais do que a outra?
Nem sempre essas questões são conversadas antes do nascimento. Às vezes, cada pessoa chega à parentalidade com uma expectativa diferente sobre o que significa cuidar de um filho. O conflito aparece quando essas expectativas se encontram na rotina, especialmente em momentos de cansaço.
A divisão dos cuidados também precisa ser compreendida considerando as circunstâncias de cada família. Gestação, parto, recuperação física e amamentação, quando presentes, envolvem demandas específicas para quem passa por essas experiências. Além disso, ideias tradicionais sobre maternidade e paternidade podem fazer com que mulheres assumam mais tarefas domésticas e cuidados cotidianos, enquanto homens sintam que precisam demonstrar força e segurança, mesmo quando estão inseguros.
Esses padrões não descrevem todas as famílias, mas podem influenciar a maneira como as responsabilidades são distribuídas e como cada pessoa se sente diante delas.
Também não existe apenas um formato de família. Há pessoas que criam os filhos sozinhas, casais de mulheres ou de homens, famílias adotivas, famílias recompostas e responsáveis que não vivem juntos. Em todas essas situações, as relações e a organização do cuidado têm características próprias.
Se os conflitos aumentaram depois da chegada do bebê, pode ser útil olhar para além da discussão mais recente. Às vezes, uma briga sobre uma tarefa doméstica também envolve cansaço acumulado, expectativas não expressas ou a sensação de não estar sendo reconhecido. Compreender o que está acontecendo não resolve automaticamente todos os problemas, mas pode abrir espaço para conversas mais claras sobre necessidades, limites e responsabilidades.
4 A HISTÓRIA DE CADA PESSOA E AS CONDIÇÕES EM QUE A FAMÍLIA VIVEA chegada de um filho pode trazer lembranças da própria infância. Talvez você se recorde de como era cuidado, das demonstrações de afeto que recebeu ou de situações que gostaria de fazer diferente com seu filho.
Algumas pessoas desejam oferecer às crianças aquilo que consideram valioso em sua história. Outras têm medo de repetir comportamentos que lhes fizeram sofrer. Há quem perceba, no cotidiano, que certas lembranças ganharam um significado diferente depois que passou a cuidar de outra pessoa.
Essas experiências podem ser importantes para compreender a maneira como alguém vive a parentalidade. Mas a história familiar não determina tudo o que uma pessoa será capaz de fazer. Reconhecer o que aconteceu no passado pode ajudar a refletir sobre o presente, sem transformar essa reflexão em uma busca por culpados.
Além da história pessoal, as condições de vida fazem diferença. É diferente cuidar de um bebê quando há alguém disponível para ajudar e quando a maior parte das responsabilidades fica concentrada em uma única pessoa. Ter condições de reduzir a jornada de trabalho, contar com uma moradia adequada e acessar serviços de saúde também pode mudar a experiência.
Por isso, a dificuldade de conciliar o trabalho com o cuidado não deve ser vista automaticamente como falta de organização. Às vezes, o problema é justamente a quantidade de responsabilidades diante do tempo, do dinheiro e do apoio disponíveis.
Outras experiências sociais também podem influenciar essa trajetória. O racismo pode afetar a maneira como famílias são tratadas em serviços de saúde e em outros espaços. Pessoas com deficiência podem encontrar barreiras de acessibilidade ou falta de apoio. Famílias LGBTQIAPN+ podem enfrentar preconceito e ter seus vínculos questionados. Cultura, religião e território também podem influenciar as expectativas sobre o que significa cuidar de uma criança.
Essas situações não são vividas da mesma forma por todas as pessoas. O importante é não presumir que uma experiência seja igual à outra nem ignorar as dificuldades que fazem parte da realidade de cada família.
A coletânea brasileira Entre paternidades e maternidades: perspectivas interseccionais, organizada por Costa, Santos e Santos (2024), reúne discussões que ajudam a ampliar o olhar sobre as diferentes experiências de parentalidade. Essa diversidade importa porque não existe uma única história, uma única família ou uma única condição de vida a partir da qual seja possível compreender todas as outras.
5 QUANDO A PSICOTERAPIA PODE AJUDAR?Você não precisa esperar chegar ao limite para procurar psicoterapia. Às vezes, a vontade de conversar surge justamente porque muitas coisas estão mudando e você gostaria de compreender melhor o que está acontecendo.
Talvez esteja difícil conciliar a parentalidade com o trabalho. Talvez você sinta que perdeu espaço para si mesmo, esteja enfrentando conflitos familiares ou tenha medo de repetir experiências da própria infância. Pode ser que nem consiga identificar uma questão específica, mas perceba que precisa de um tempo para falar sobre como está vivendo essa fase.
Na psicoterapia, você pode trazer essas experiências sem precisar chegar com respostas prontas. O trabalho envolve conversar sobre o que está acontecendo, compreender o que isso representa para você e examinar as questões que aparecem em sua vida.
Na perspectiva fenomenológico-existencial, não se parte da ideia de que todas as pessoas devam viver a parentalidade da mesma maneira. O que importa é compreender a experiência de cada um, considerando sua história, seus relacionamentos e as circunstâncias em que vive. Em vez de ensinar um modelo ideal de pai ou mãe, a proposta é favorecer uma compreensão mais cuidadosa do que está sendo vivido.
Isso também significa reconhecer que nem toda dificuldade pode ser resolvida individualmente. Se falta apoio, tempo, dinheiro ou condições adequadas de descanso, conversar sobre os sentimentos não elimina esses problemas. A realidade precisa ser considerada, e pode ser necessário buscar outras formas de apoio ou acompanhamento profissional.
A psicoterapia não substitui o acompanhamento médico quando ele é necessário. Em situações de sofrimento intenso, dificuldades importantes no cotidiano ou suspeita de problemas de saúde, procurar avaliação profissional é uma forma de cuidado.
Buscar ajuda não significa que você fracassou como pai ou mãe. Pode significar que deseja compreender melhor o que está vivendo, reconhecer suas necessidades e encontrar maneiras possíveis de lidar com as mudanças que chegaram com seu filho.
A CHEGADA DE UM FILHO TAMBÉM TRANSFORMA QUEM CUIDATornar-se pai ou mãe não é apenas aprender a cuidar de uma criança. É também descobrir como viver uma relação que passa a ocupar um lugar importante na própria história. Algumas mudanças trazem alegria; outras exigem tempo, conversas e ajustes que nem sempre acontecem como o esperado.
Você pode amar profundamente seu filho e sentir cansaço. Pode estar feliz com a família que está construindo e sentir falta de partes da vida anterior. Pode desejar fazer tudo da melhor maneira possível e, ainda assim, não saber exatamente o que fazer em determinadas situações.
Essas contradições não precisam ser escondidas para que sua experiência seja legítima. O cuidado com uma criança também envolve reconhecer os limites e as necessidades de quem cuida, considerando as relações e as condições reais de vida.
A psicoterapia pode ser um caminho para compreender essas mudanças, sem exigir que você se encaixe em uma imagem idealizada de pai ou mãe. Não há uma fórmula única para viver a parentalidade. Há uma história, uma família e uma experiência que merecem ser compreendidas em sua singularidade.
O que mudou em você desde a chegada do seu filho — e o que ainda está tentando compreender sobre essa nova fase da vida?
PERGUNTAS FREQUENTESQuando procurar terapia ao se tornar pai ou mãe pela primeira vez?
Você pode procurar psicoterapia quando sentir vontade de compreender melhor as mudanças, os conflitos ou as dúvidas que surgiram com a chegada do bebê. Não é necessário esperar que o sofrimento seja intenso. Se a tristeza, a ansiedade ou a exaustão forem persistentes e estiverem prejudicando sua vida cotidiana, é importante buscar avaliação profissional.
A terapia é indicada apenas para mães?
Não. Pais e outras pessoas responsáveis pelo cuidado também podem procurar psicoterapia. Cada pessoa vive essa experiência de maneira própria, e o acompanhamento considera sua história, suas relações e as responsabilidades que fazem parte de sua vida.
A psicoterapia pode ajudar nos conflitos familiares após a chegada do bebê?
Pode ajudar a compreender o que está por trás dos conflitos, quais expectativas não foram conversadas e como cada pessoa está vivendo as mudanças. Isso não garante que todos os problemas serão resolvidos, mas pode favorecer uma compreensão mais clara das necessidades e dos limites envolvidos.
REFERÊNCIASCOSTA, Angelo Brandelli; SANTOS, Elder Cerqueira; SANTOS, Helen Barbosa dos (org.). Entre paternidades e maternidades: perspectivas interseccionais. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2024. Disponível em: https://editora.pucrs.br/livro/1720/
OLIVEIRA, João Marcos de; ALVARENGA, Patrícia; PAIXÃO, Catiele; SALES, Paula Kleize Costa. Revisão sistemática de intervenções com pais na transição para parentalidade. Psicologia: Teoria e Prática, v. 25, n. 2, 2023. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/pdf/ptp/v25n2/1980-6906-ptp-25-02-ePTPCP14839.pdf
PRATI, Laíssa Eschiletti; KOLLER, Sílvia Helena. Relacionamento conjugal e transição para a coparentalidade: perspectiva da psicologia positiva. Psicologia Clínica, v. 23, n. 1, p. 103–118, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pc/a/srk983ncCYtSSsYRFNMTq3r/?lang=pt