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Transtorno Afetivo Bipolar e Sua Relação Com o Uso de Álcool e Outras Drogas

O que é o Transtorno Afetivo Bipolar?

O Transtorno Afetivo Bipolar, também chamado de TAB ou transtorno bipolar, é um transtorno do humor caracterizado por episódios de mania, hipomania, depressão ou pela combinação de sintomas dos dois polos.

Durante esses episódios, podem ocorrer mudanças importantes no humor, na energia, no sono, no pensamento e no comportamento. Entre eles, a pessoa pode apresentar períodos de estabilidade, chamados de eutimia. A intensidade, a duração e a frequência das crises variam em cada caso.

O termo “afetivo” não se refere apenas ao carinho ou às relações amorosas. Ele diz respeito ao humor e à maneira como a pessoa experimenta emocionalmente a si mesma e o mundo, modificando não somente aquilo que ela sente, mas seu funcionamento como um todo.

Não se trata apenas de “mudar de humor” Variações emocionais fazem parte da vida. É esperado sentir tristeza diante de uma perda, irritação durante um conflito ou entusiasmo após uma conquista.

É equivocado pensar que ser bipolar significa passar da felicidade para a tristeza em poucos minutos. O diagnóstico não se baseia em mudanças comuns de humor, mas na presença de um conjunto de manifestações, em sua duração e nos prejuízos produzidos.

O que é um episódio de mania?

A mania é um estado de intensa elevação ou irritabilidade do humor, acompanhado por aumento incomum de energia e atividade.

A pessoa pode apresentar pouca necessidade de sono, pensamento e fala acelerados, aumento da sociabilidade, autoconfiança excessiva, envolvimento em muitos projetos e dificuldade para avaliar riscos. Gastos descontrolados, conflitos, comportamentos sexuais impulsivos e uso de substâncias também podem ocorrer.

Nem sempre a mania aparece como euforia. Em alguns casos, predominam irritabilidade, agitação, agressividade e intolerância a limites.

Nos quadros mais graves, podem surgir desorganização do pensamento, ideias delirantes e perda do contato com a realidade.

Esse estado pode inicialmente ser percebido como agradável. A pessoa sente-se mais produtiva, confiante ou capaz e, por isso, nem sempre reconhece que está adoecendo. Com o agravamento do episódio, essa sensação pode dar lugar a riscos, conflitos e perda de controle sobre as próprias decisões.

O que é um episódio de hipomania?

A hipomania apresenta características semelhantes às da mania, mas com menor intensidade e sem o mesmo grau de desorganização.

A pessoa pode parecer apenas mais produtiva, criativa, sociável ou confiante. Por isso, esse período pode ser interpretado como uma melhora, especialmente quando surge após uma fase depressiva.

Ainda assim, a hipomania pode favorecer decisões impulsivas, conflitos, gastos, interrupção do tratamento e aumento do consumo de substâncias. Seu reconhecimento também pode ser difícil porque a própria pessoa costuma valorizar a sensação de energia e eficiência.

O que é um episódio depressivo?

No episódio depressivo, ocorre um rebaixamento importante do humor, da energia e do interesse pelas atividades.

Podem surgir tristeza persistente, perda de prazer, isolamento, dificuldade de concentração, alterações no sono e no apetite, culpa e desesperança. Atividades simples, como levantar-se, tomar banho, organizar o ambiente ou conversar, podem se tornar difíceis.

Essas limitações não devem ser confundidas com preguiça ou falta de caráter. Elas fazem parte do comprometimento produzido pelo episódio.

Nos casos mais graves, podem aparecer pensamentos de morte ou ideias de suicídio. Esses sinais precisam ser comunicados imediatamente à uma pessoa de confiança, rede de apoio ou equipe de tratamento.

O que são episódios com características mistas?

Mania e depressão nem sempre aparecem de maneira completamente separada. Em algumas situações, manifestações dos dois polos podem ocorrer ao mesmo tempo ou alternar-se rapidamente.

A pessoa pode apresentar aceleração e agitação acompanhadas de angústia, desesperança ou pensamentos de morte. Pode também sentir-se deprimida e exausta, mas permanecer inquieta ou incapaz de dormir.

O TAB não é uma simples alternância entre uma fase “feliz” e outra “triste”. Em alguns episódios, experiências aparentemente opostas coexistem.

Quais são os principais tipos de transtorno bipolar?

No Transtorno Bipolar Tipo I, ocorre pelo menos um episódio de mania. Episódios depressivos são comuns, mas não são necessários para definir esse tipo.

No Transtorno Bipolar Tipo II, ocorrem episódios de hipomania e episódios depressivos, sem histórico de mania. Isso não significa que seja uma forma leve do transtorno, pois a depressão pode produzir sofrimento e prejuízos intensos.

Existem ainda outras apresentações, como o transtorno ciclotímico, caracterizado por oscilações prolongadas do humor que não atingem todos os critérios de um episódio completo. Também podem ocorrer quadros relacionados a condições médicas, medicamentos ou substâncias.

O que causa o transtorno bipolar?

Não existe uma causa única. O TAB é uma condição multifatorial, relacionada à interação entre fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais e ambientais.

Isso significa que ele não resulta simplesmente de falta de força de vontade, de um conflito familiar ou do uso de uma droga específica. Entretanto, situações estressantes, perdas, privação de sono, interrupção do tratamento e uso de substâncias podem precipitar ou agravar episódios em pessoas vulneráveis.

Por isso, é importante diferenciar causa de gatilho. Um acontecimento pode contribuir para uma crise sem ser a origem isolada do transtorno.

Como o diagnóstico é realizado?

O diagnóstico é clínico e depende da compreensão da história da pessoa ao longo do tempo. Não existe um exame de sangue ou de imagem que confirme isoladamente o TAB.

A avaliação considera o início, a duração e a intensidade dos episódios, os prejuízos produzidos, o funcionamento habitual da pessoa, o uso de medicamentos ou substâncias e a ocorrência de manifestações semelhantes anteriormente. Informações de familiares e pessoas próximas também podem contribuir.

O diagnóstico não deve ser construído a partir de um único sintoma. Insônia, tristeza ou impulsividade, por exemplo, podem ocorrer em diferentes condições.

Quando existe uso de álcool ou outras drogas, a avaliação exige ainda mais cuidado, pois a intoxicação e a abstinência podem produzir quadros semelhantes aos episódios bipolares. Nesses casos, compreender a sequência dos acontecimentos é fundamental.

O transtorno bipolar e a identidade da pessoa

Receber o diagnóstico pode provocar alívio, medo, vergonha ou resistência. Para algumas pessoas, ele ajuda a compreender experiências anteriores. Para outras, é inicialmente vivido como uma marca ou uma sentença.

Ter transtorno bipolar, entretanto, não significa ser definido por ele. O diagnóstico descreve uma condição, mas não resume a história, os desejos, as capacidades e os projetos de uma pessoa.

Reconhecer o transtorno também não significa aceitar passivamente tudo o que acontece. Significa aprender a identificar os próprios sinais, compreender os limites impostos pelas crises e participar de forma mais ativa do tratamento.

Quanto maior o conhecimento sobre o próprio funcionamento, maior a possibilidade de perceber mudanças antes que elas se agravem. O cuidado envolve acompanhamento profissional, uso adequado das medicações prescritas, atenção ao sono e à rotina, fortalecimento da rede de apoio e reconhecimento precoce dos sinais de crise.

A relação entre o Transtorno Afetivo Bipolar e o uso de substâncias

A associação entre o Transtorno Afetivo Bipolar e o uso problemático de substâncias psicoativas é frequente, mas não possui uma explicação única. Trata-se de uma relação complexa, variável e bidirecional: o transtorno pode favorecer o consumo, enquanto o consumo pode precipitar, intensificar ou prolongar manifestações do transtorno.

Essas duas condições nem sempre aparecem na mesma ordem. Em algumas pessoas, os episódios bipolares antecedem o uso problemático. Em outras, o consumo participa do surgimento da primeira crise ou torna mais evidente uma vulnerabilidade que ainda não havia se manifestado. Também é possível que ambos se desenvolvam por fatores parcialmente comuns ou coexistam sem que seja possível estabelecer uma causa direta entre eles.

Por isso, não é adequado afirmar, de maneira geral, que a substância causou o transtorno ou que toda pessoa com TAB utiliza drogas por causa da doença. Cada história precisa ser compreendida individualmente.

Quando o transtorno favorece o uso

Os episódios afetivos podem modificar a relação da pessoa com as substâncias.

Durante um episódio depressivo, o consumo pode ser procurado como tentativa de diminuir o sofrimento, produzir algum prazer, facilitar o sono ou afastar pensamentos difíceis. Durante a mania ou a hipomania, pode acompanhar a impulsividade e a menor percepção dos riscos, além de ser utilizado para sustentar ou intensificar o estado de aceleração.

Em ambos os casos, a substância passa a exercer uma função: alterar rapidamente uma experiência interna que a pessoa não consegue ou não deseja sustentar naquele momento.

Essa tentativa é frequentemente denominada automedicação. O termo, entretanto, precisa ser utilizado com cuidado. A substância pode modificar temporariamente o que a pessoa sente, mas não trata o transtorno. O alívio ou a intensificação procurados costumam ser passageiros e podem produzir novas consequências posteriormente.

Assim, mais importante do que perguntar apenas “por que essa pessoa usa?” é investigar: O que o uso permite sentir, evitar ou sustentar?

Compreender essa função não significa justificar o consumo. Significa reconhecer que a retirada da substância, por si só, pode não ser suficiente quando ela ocupava um lugar importante na forma como a pessoa lidava com seu próprio funcionamento psíquico.

Quando o uso interfere no transtorno

A relação também acontece no sentido contrário. As substâncias psicoativas atuam justamente sobre funções envolvidas no transtorno bipolar, como humor, energia, sono, percepção, julgamento e controle dos impulsos.

Em pessoas vulneráveis, o consumo pode contribuir para o surgimento da primeira crise, algumas vezes antecipando sua manifestação. Isso não significa que a droga produza transtorno bipolar em qualquer pessoa, mas que pode funcionar como um fator precipitante em quem já apresentava determinada predisposição.

A predisposição não deve ser compreendida como uma doença que estava “adormecida” e inevitavelmente surgiria. Trata-se de uma vulnerabilidade formada pela interação de fatores genéticos, biológicos, psicológicos e ambientais. A substância pode participar dessa interação e favorecer a passagem da vulnerabilidade para uma manifestação clínica.

Quando o transtorno já está presente, o consumo pode agravar seu curso, aumentando a intensidade e a duração das crises, dificultando a estabilização e prejudicando a adesão ao tratamento. O artigo de Ribeiro, Laranjeira e Cividanes relaciona essa associação a maior ocorrência de episódios mistos, ciclagem rápida, demora na remissão, internações mais frequentes e pior resposta às intervenções.

O prejuízo não depende apenas da ação química da substância. O consumo também pode desorganizar a rotina, comprometer o sono, favorecer a interrupção da medicação, aumentar conflitos e produzir consequências sociais, familiares e financeiras. Esses fatores geram novos sofrimentos e podem contribuir para a manutenção do quadro.

Quando a substância se parece com o transtorno

A intoxicação e a abstinência podem produzir quadros semelhantes aos episódios bipolares. Algumas substâncias provocam aceleração, desinibição ou alterações da percepção; outras podem causar rebaixamento, lentificação ou instabilidade emocional. Também é possível que, após o término do efeito imediato, surja um estado oposto ao produzido durante o consumo.

Nessas situações, nem sempre é possível determinar imediatamente se houve:

um episódio do transtorno bipolar;

um quadro induzido pela substância;

ou a combinação dos dois.

Essa diferenciação depende da história clínica, da sequência dos acontecimentos e da observação durante períodos sem consumo. A existência de episódios anteriores independentes da substância e a permanência das alterações após a intoxicação ou abstinência são elementos importantes para a avaliação.

A abstinência, portanto, não possui apenas a função de interromper os prejuízos do consumo. Ela também permite que a equipe e o próprio paciente observem com maior clareza o funcionamento do humor sem a interferência direta das substâncias.

Quando um problema passa a alimentar o outro

A interação entre TAB e uso de substâncias pode formar um ciclo:

Alteração do humor → uso da substância → mudança temporária do estado interno → agravamento do quadro e novas consequências → aumento do sofrimento → novo uso.

Depois que esse ciclo se estabelece, encontrar um único ponto de origem pode se tornar menos importante do que compreender como ele continua funcionando.

A pessoa pode usar em resposta a um episódio e, ao mesmo tempo, ter esse episódio agravado pelo uso. A substância aparece como tentativa de solução e, progressivamente, transforma-se em parte do problema que deveria aliviar.

Por isso, duas explicações precisam ser evitadas:

“Tudo acontece por causa da droga.”

e

“O uso não tem relação com meu transtorno.”

Na associação entre as duas condições, o mais comum é que diferentes fatores estejam agindo simultaneamente. 

O tratamento precisa considerar tanto as alterações do humor quanto a função e as consequências do consumo.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do Tipo I. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016. Aprovado pela Portaria nº 315, de 30 de março de 2016.

DUARTE, Ana Louise; CARDIM, Matheus Martins. Transtorno bipolar, relações interpessoais e afetividade de indivíduos acometidos pela doença. Revista de Pesquisa e Prática em Psicologia, Florianópolis, v. 1, n. 3, p. 740–762, 2021.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Bipolar disorder. Genebra: World Health Organization, 8 set. 2025.

RIBEIRO, Marcelo; LARANJEIRA, Ronaldo; CIVIDANES, Giuliana. Transtorno bipolar do humor e uso indevido de substâncias psicoativas. Revista de Psiquiatria Clínica, São Paulo, v. 32, supl. 1, p. 78–88, 2005.

Autor do Artigo

João Victor Braga

Psicólogo(a) cadastrado(a) no PsicoBrasil

Sou psicólogo de orientação psicanalítica, com interesse especialmente voltado à chamada Clínica do Vazio, às questões relacionadas ao sentido da existência, aos vínculos e às form...

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